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Alianças, candidaturas e desistências conduzem debate

Seis grupos protagonizam o debate, e 7% das interações foram geradas por perfis automatizados

Atualizado em 10 de agosto, 2018 às 5:27 pm

A confirmação oficial da chapa petista para as eleições, no fim de semana, propiciou novo impulso ao debate nas redes sociais sobre Lula, que havia perdido fôlego nos últimos meses, mostra nova edição do DAPP Report – A semana nas redes. Porém, Jair Bolsonaro persiste como ator de maior impacto no debate via Twitter — em especial desde o fim de julho, dadas as presenças na televisão e o fato de que, ao longo dos últimos meses, o deputado federal se consolidou como ator de mais influência (direta e indireta) nos debates atraídos e produzidos por seus adversários.

>> Confira a íntegra do DAPP Report – A semana nas redes
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Desde a última quinta-feira (02), a discussão sobre os presidenciáveis mobilizou 3,2 milhões de publicações no Twitter, com grande pico de menções no sábado (04) associado a Bolsonaro — cerca de 25 mil tuítes por hora — em função da repercussão de sua sabatina, na noite de sexta-feira (03), na GloboNews. De forma geral, a confirmação de alianças, candidaturas e desistências foi o principal condutor do aumento de referências aos nomes da disputa, assim como as entrevistas em programas de TV. E, afora Lula e Bolsonaro, os dois nomes que mais apresentam, até o momento, potencial de debate — e vêm aumentando presença nas redes sociais — são Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, com constantes picos de menções associados a diversos episódios e agendas temáticas. No Facebook, no entanto, Alckmin ainda apresenta dados mais tímidos que os de Ciro e o de Marina Silva, que, com exceção do impulso de citações pela entrevista à GloboNews, dificilmente engaja discussões abrangentes no Twitter, seja de natureza política, seja voltadas a questões como economia, saúde e educação.

Mapa de interações

Entre os dias 1º e 7 de agosto, foram coletadas 2.670.163 publicações sobre os pré-candidatos no Twitter, das quais 1.838.735 são retuítes. Destes, 1.708.849 foram identificados como retuítes orgânicos no debate, e 129.886 como retuítes gerados por contas identificadas pela FGV DAPP como robôs. Ou seja, cerca de 7% das interações foram identificadas como advindas de 1.204 contas consideradas automatizadas. O grupo com maior quantidade de robôs foi o azul claro, que teve 0,83% de perfis automatizados. O grupo também é o que possui o maior volume de interações geradas por este tipo de perfil: 10% das interações totais do grupo foram oriundas de robôs.

Para este DAPP Report, optou-se por segmentar mais os grupos a fim de encontrarmos nuances dentro dos diferentes grupos ideológicos verificados, usualmente, em debate no Twitter. Desta forma, foram encontrados seis principais grupos na discussão sobre os pré-candidatos à Presidência, marcados por cores diferentes no mapa de interações a seguir. O mapa de interações foi gerado levando em conta apenas o debate orgânico. Ou seja, foram excluídos tanto os perfis identificados como robôs, como suas interações durante o período.

Grupo Rosa Claro
O grupo agrega 42,4% dos perfis em debate durante a última semana. Apesar de ser o maior em quantidade de perfis, é o terceiro em termos de interações, gerando cerca de 14% dos retuítes mobilizados no grafo. O grupo defende valores “progressistas” e, nos principais tuítes, critica atitudes machistas, homofóbicas e racistas. Em muitos dos principais tuítes também aparecem menções negativas a Bolsonaro, que é visto pelos integrantes do grupo como uma opção ruim para o futuro do país. Aparece também o caso do assassinato da advogada Tatiana Spitzner, que é mobilizado como um indicativo de que o Brasil precisa de lei específica para o feminicídio.

Grupo Rosa Escuro
Com 15,6% dos perfis, o grupo é o segundo com maior quantidade de contas envolvidas no debate. No entanto, está em quarto lugar entre os grupos que mais geraram interações, com 10,1% dos retuítes. O grupo também defende valores progressistas e se opõe a Bolsonaro, mas mobiliza ainda um debate sobre a ciência e a pesquisa no país. O principal tuíte do grupo é de @MarceloTas, que fala que o problema de Bolsonaro é ser de “extrema burrice”. O segundo principal tuíte diz que Alckmin pretende acabar com a gratuidade da pós-graduação e, portanto, não deveria ser eleito. Outro tuíte lembra quais dos presidenciáveis apoiam as medidas aprovadas por meio da PEC do Teto e os culpa por acabarem com a ciência e a inovação do país.

Grupo Azul Claro
O grupo agrega 15,3% dos perfis em debate, estando em terceiro lugar em termos de quantidade de perfis. Pela métrica de interações, o grupo se encontra na primeira posição, sendo o responsável por gerar o maior volume de debate no mapa de interações, com 49,4% dos compartilhamentos. O principal tuíte do grupo pede que os usuários dêem retuíte caso estejam felizes com o Lula na cadeia. Muitos dos tuítes mais compartilhados pelos membros do grupo são de Jair Bolsonaro. Destes, vários se mostram felizes com o encaminhamento da entrevista do pré-candidato na GloboNews, que teria forçado a emissora a “renegar o Roberto Marinho ao vivo”. A aparição de Bolsonaro na sabatina foi vista como uma vitória para o pré-candidato por membros do grupo.

Grupo Vermelho
O grupo tem 11,5% dos perfis, tendo a 4a colocação em termos de número de contas. Pela quantidade de interações, ele fica em segundo lugar, tendo gerado 16,7% dos retuítes do período analisado. O principal influenciador do grupo é o ex-presidente Lula. Aparecem muitas mensagens falando da oficialização da candidatura do ex-presidente, e da escolha de seu vice. Além de mensagens do perfil do ex-presidente, o grupo também compartilha críticas ao governo de Michel Temer, especialmente no que tange ao possível corte de bolsas da Capes. O grupo também faz oposição a Bolsonaro.

Grupo Roxo
O grupo soma 6,3% dos perfis em interação e 6% das interações representadas no grafo. O seu principal influenciador foi o pré-candidato João Amoêdo: os tuítes do grupo falam principalmente da “injustiça” cometida contra Amoêdo no que tange a sua exclusão dos debates. O pré-candidato pede aos internautas que peçam sua participação no debate da Band, mobilizando a hashtag #JoãonaBand. Outras postagens falam do desperdício de um Estado grande, além de criticarem Bolsonaro.

Grupo Azul Escuro
Por fim, o grupo azul escuro uniu 6,2% dos tuítes e gerou 3,5% das interações totais do mapa de interações. O principal influenciador é Jair Bolsonaro, cuja imagem é a que unifica o grupo. Por conta disso, os principais tuítes são do deputado e pré-candidato à Presidência.

Temas mais associados

Entre os temas monitorados em associação aos pré-candidatos, a corrupção segue em destaque, mantendo a tendência de semanas anteriores. Proporcionalmente, o assunto é mais prevalente entre referências a Lula, Alckmin, Marina e Boulos. Economia é o segundo tema mais mobilizado em menções aos pré-candidatos, alcançando maior relevância dentro do debate sobre Meirelles, Amoêdo e Ciro Gomes.

Educação surge como principal tema apenas em associação a Alvaro Dias, devido a dois principais tópicos: a polêmica em torno de possíveis cortes de recursos para fomento em pesquisa (Alvaro Dias é apontado como favorável à PEC do teto, ligada às restrições orçamentárias) e as declarações do presidenciável na sabatina da Globo News sobre a aplicação de impostos em áreas como a educação. Bolsonaro e Cabo Daciolo mantêm-se como os pré-candidatos proporcionalmente mais associados à segurança pública.

 

*Nota metodológica

 

O DAPP Report é uma publicação sem vinculação política ou partidária, produzida pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), que tem o objetivo de disponibilizar uma análise do cenário político brasileiro a partir do debate público nas redes sociais.

As análises produzidas neste Report não visam representar pesquisa eleitoral, e sim aferir a percepção social, no ambiente digital, acerca de temáticas da agenda pública, tais como atores políticos e pautas de políticas públicas. Portanto, não autorizam o seu uso para finalidades políticas, partidárias ou endosso de posições particulares. Mais informações acerca deste trabalho podem ser acessadas em observa2018.com.br/metodologia.

A metodologia de análise de redes sociais desenvolvida pela FGV DAPP e aplicada a este relatório pode ser aferida na publicação “Nem tão #simples assim: o desafio de monitorar políticas públicas nas redes sociais”.