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Após ataque, debate crítico a Bolsonaro é predominante

Mapa de interações no Twitter mostra que grupo que antes questiona veracidade do ataque passou a criticar Bolsonaro e expressar repúdio a uso político da violência

Atualizado em 24 de setembro, 2018 às 11:56 am

Antes protagonista no debate no Twitter sobre o ataque a Jair Bolsonaro, na última quinta (06), a discussão sobre a veracidade do incidente passou a ceder espaço desde sexta (07) a outros questionamentos. Esse grupo majoritário, em laranja, continua hegemônico (53,9% dos perfis), mas agora destaca, para além da especulação sobre a facada ser “fake”, o discurso de ódio, a intensificação da violência no processo eleitoral, a postura combativa de Bolsonaro e familiares e a sucessão de “tragédias” no cenário brasileiro, com o incêndio no Museu Nacional.

Com isso, caiu desde sábado a presença de postagens sobre o esfaqueamento em si. Em contraste, expandiram-se as discussões de teor temático sobre Bolsonaro, citando a “retórica de violência” que vem acirrando os ânimos no país. Sem alinhamento a nenhum grupo de posição claramente favorável a um ator político, alguns retuítes populares do grupo manifestaram apoio pontual a posições de Ciro Gomes (em tom humorístico), como alternativa viável aos dois polos e para evitar Bolsonaro.

O presidenciável do PDT já tem grupo bem delineado (em rosa, 7,7% dos perfis) e em separado da esquerda protagonizada pelo PT (vermelho, 9,9%), com muitos elos de contato com o núcleo em laranja (ambos estavam até então unidos no mesmo núcleo rosa). Essa separação em dois campos à esquerda é mobilizada pelo aumento de presença de Ciro nas redes sociais, tanto em relação a Bolsonaro quanto como ator de debates temáticos em geral. Foi ele o candidato de maior impacto no Twitter ao demonstrar solidariedade ao adversário pelo esfaqueamento.

Em azul, o grupo de apoio a Bolsonaro reúne 15,7% dos perfis do grafo (cresceu em relação a sexta, quando concentrava 12,7%) e demonstra maior reatividade às críticas e questionamentos dos demais núcleos, reiterando a veracidade do ataque e os bons números de Bolsonaro nas pesquisas eleitorais. Também afirmam que, ao contrário da opinião de adversários, não fomentam o discurso de ódio ou fazem incitação à violência, enfatizando que o agressor foi preso e que há excesso de visão negativa em relação ao deputado federal, mantendo crítica à esquerda. Esse grupo azul, em movimento contrário ao que ocorreu com Ciro e o PT, que se separaram, passou a aglutinar boa parte de um núcleo focado na crítica à esquerda (até sexta, exibido em roxo no grafo). O grupo em verde foi outro a perder muito espaço, desidratado pela redução do componente imediato/noticioso do ataque a Bolsonaro em Juiz de Fora.

Presidenciáveis no Twitter

O ataque a Jair Bolsonaro representou expressiva mudança no debate sobre os presidenciáveis nas redes e, desde então, impactou principalmente Geraldo Alckmin. O tucano, que apresentava contínuo crescimento de participação no Twitter no começo do mês, engajado pela campanha de TV crítica a Bolsonaro e pelo antagonismo com o governo Temer, perdeu fôlego enquanto ator das discussões eleitorais: caiu a valores diários inferiores a 30 mil menções/dia, em média, após a última quinta-feira (06 de setembro), data do ataque ao candidato do PSL.

Na quinta, todos os candidatos tiveram aumento de presença no debate, com a repercussão da agressão a Bolsonaro, em especial Alckmin e Ciro Gomes. No entanto, durante o fim de semana, o tucano não conseguiu se manter como ator central da polarização com Bolsonaro. Já na sexta, foi expressiva a queda do candidato do PSDB, que, no sábado, foi citado menos de 20 mil vezes.

Já Ciro preservou o alto volume de referências desde quinta e obteve uma significativa repercussão ao se manifestar em solidariedade a Bolsonaro. O candidato do PDT conseguiu se manter acima das 80 mil menções/dia e ganhou ainda mais destaque com o debate na TV Gazeta, neste domingo (09), ao atingir 148,4 mil menções. Enquanto isso, nenhum de seus adversários presentes no debate superou as 50 mil referências no mesmo dia.

Evolução de menções no Twitter – Top 10 – 06.set a 09.set

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

Marina Silva apresentou declínio tão notável quanto o do tucano, retrocedendo a volumes semelhantes ao do início da corrida eleitoral. A candidata da Rede continua sem mobilizar regularmente as discussões eleitorais, salvo exceções, como o embate com Bolsonaro na Rede TV!. Já Henrique Meirelles, impulsionado pelo antagonismo com Guilherme Boulos na TV Gazeta, subiu a 16,3 mil referências neste domingo (09) — até então, em setembro, Meirelles não havia conseguido chegar a mais de 11 mil menções em um único dia. Também pela posição contundente, Boulos foi o mais mencionado dentre os participantes, atrás apenas de Ciro.

Quanto a Fernando Haddad, provável substituto de Lula na chapa petista à Presidência, que deve ser chancelada nesta terça (11), os números obtidos na quinta e na sexta melhoraram em relação à tendência observada ao longo da primeira semana de setembro (cerca de 50 mil tuítes/dia). Já no sábado e no domingo, foi expressiva a queda no debate sobre o petista, que, mesmo assim, permaneceu à frente de Marina e de Alckmin, devido à expectativa de oficialização de seu nome como candidato no lugar de Lula.

Presidenciáveis no Facebook

No Facebook, o ataque sofrido por Bolsonaro causou impacto mais moderado nas páginas dos demais candidatos. Somente Marina Silva (53,4%), Ciro Gomes (49,2%) e Fernando Haddad (5,8%) tiveram volume de interações em suas páginas superior ao dos quatro dias anteriores ao atentado em Juiz de Fora (MG).

Engajamento nas páginas de atores políticos no Facebook
Top 10 – 06.set a 09.set


Fonte: Facebook | Elaboração: FGV DAPP

Mesmo com queda de 28,5% na quantidade de reações, comentários e compartilhamentos em sua página, no entanto, João Amoêdo segue tendência das últimas semanas e lidera em volume total de engajamentos, com pouco mais de 1 milhão de interações. O candidato do Novo é um dos que mais publica na rede: desde a quinta-feira (6), foram 42 publicações, número só inferior ao de Alvaro Dias, que postou 49 vezes. O principal pico de interações de Amoêdo não está relacionado a Bolsonaro, mas à mobilização pela sua participação no debate da TV Gazeta. 

A página oficial de Bolsonaro, segunda colocada no ranking de interações, também registrou queda no volume absoluto de engajamento: foram 851,8 mil, valor cerca de 34% menor em relação aos quatro dias anteriores. Apesar disso, com um volume de postagens também bastante reduzido (65% menor), a média de interações por post do candidato do PSL foi a melhor do período analisado, com 106,4 mil interações por publicação — taxa 84% maior do que verificado entre 2 e 5 de setembro. Amoêdo é o segundo colocado na média de engajamento, com valor expressivamente menor: 24,4 mil interações por post.

Com suas publicações em solidariedade ao candidato do PSL, Ciro Gomes foi o segundo que mais cresceu no Facebook, no período, superando, em volume de interações, a página de Fernando Haddad, também em tendência de crescimento, ainda que bem mais discreto. Na análise das médias de engajamento, o pedetista passou de 5,5 mil interações por post para 8,5 mil. Marina Silva foi a candidata com maior crescimento em valores totais de engajamento, mas ainda encontra dificuldade em manter-se entre os primeiros lugares do ranking, ocupando a sexta posição. Em média, cada post da página oficial da candidata motivou 6,5 mil interações.

A repercussão de notícias

Entre os dias 05 e 09 de setembro, o engajamento das notícias sobre os candidatos à Presidência alcançou 21.517.084 interações (em 14.297 links) no Facebook e no Twitter ‒ entre curtidas, comentários e compartilhamentos. Bolsonaro foi o principal impulsionador do repercussão de notícias, com 16 milhões de interações em 9,8 mil links no período analisado; seguido de Alckmin, com 1,4 milhões de interações em 1,5 mil links; Ciro, com 1,2 milhões de interações em 834 links; e Haddad, com 1,1 milhões de interações em 1 mil links.

A repercussão do ataque a Bolsonaro foi responsável também pela maior variação de engajamento de notícias no Facebook e no Twitter, no período analisado. O volume de interações foi de 1,6 milhões (em 696 links), na quarta-feira (05), para 7,4 milhões (em 3.297 links), no dia seguinte (06), e 3,9 milhões de interações na sexta (07). No que diz respeito à repercussão de notícias, Bolsonaro se manteve muito acima dos demais presidenciáveis durante o fim de semana.

Evolução de engajamento das notícias sobre os dez principais candidatos à Presidência no Twitter e no Facebook ‒ 05.set a 09.set

Fonte: Facebook | Elaboração: FGV DAPP

Das notícias protagonizadas por Bolsonaro, entre 05 e 09 de setembro, as que tiveram maior repercussão estavam relacionadas ao ataque sofrido pelo presidenciável na quinta-feira (06). A reportagem que obteve maior engajamento ‒ com 786.122 interações no Twitter e no facebook até o fechamento desta análise ‒ compartilha um vídeo amador da facada e dá detalhes do ocorrido. Outras notícias com grande repercussão abordam o quadro clínico de Bolsonaro após o ataque (272.585 interações) e informações sobre o suposto autor da facada (203.684 interações).