03 out

Ataques à imprensa nas eleições geram quase 1 milhão de tuítes

Críticas à reportagem da revista Veja sobre Bolsonaro e vaivém judicial sobre entrevista de Lula impulsionaram pico com 474 mil menções; debate sobre liberdade de imprensa e regulamentação da mídia movimenta 95,9 mil tuítes

Atualizado em 8 de outubro, 2018 às 2:09 pm

Na reta final da primeira etapa da campanha eleitoral, o debate nas redes sociais passa por um acirramento das discussões sobre liberdade de imprensa, com usuários que colocam em xeque a cobertura midiática das eleições. Apenas nos últimos 15 dias (de 18 de setembro a 2 de outubro), foram registrados 945,3 mil tuítes que abordam a atividade da imprensa nas eleições. Cerca de 82% deles foram publicados depois do dia 28, quando também foi registrado o pico de referências no período analisado: 474,3 mil menções.

Naquele dia foi divulgada a edição da revista Veja com reportagem de capa sobre processo judicial envolvendo o candidato Jair Bolsonaro, e a Folha de São Paulo foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski a entrevistar o ex-presidente Lula.

Em resposta à capa da revista, vista por apoiadores de Bolsonaro como uma tentativa da mídia de atrapalhar a campanha do candidato com base em brigas familiares e argumentos infundados, usuários levantaram a hashtag #veja600milhões, presente em mais de 451 mil tuítes. O marcador foi usado para destacar a acusação da jornalista Joice Hasselmann de que a Veja teria recebido R$ 600 milhões para difamar Bolsonaro. Com a hashtag, os usuários não apenas criticaram a revista, defendendo o presidenciável das acusações, mas também recriminaram a imprensa por fazer uma militância que, segundo os usuários, privilegiaria certos candidatos em detrimento de outros em uma campanha ativa contra Bolsonaro.

Mesmo antes do pico de menções, já havia ao menos 39,5 mil tuítes em tom de questionamento sobre a real motivação por trás do pedido feito pela revista Veja e pelo SBT à Justiça para entrevistar Adelio Bispo, agressor de Bolsonaro, na véspera do primeiro turno das eleições. Já a decisão do ministro Lewandowski no dia 28 de autorizar a Folha de São Paulo a entrevistar o ex-presidente Lula e os desdobramentos que se deram a partir dela foram responsáveis por cerca de 260 mil tuítes. A maior parte dos usuários se posicionou contra a decisão, levantando questionamentos sobre a imparcialidade tanto dos veículos de mídia quanto do ministro e afirmando que a entrevista seria um ato de campanha.

Ainda na sexta-feira, no entanto, o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão e determinou que, caso a entrevista já tivesse sido realizada, a Folha não deveria divulgá-la. O tuíte mais compartilhado sobre este debate repercutiu, em tom irônico, a fala do advogado do jornal afirmando que a decisão de Fux seria a coisa mais grave ocorrida desde o fim da ditadura. O debate seguiu polarizado entre os usuários que entendem que a decisão de Fux seria um ataque à liberdade de expressão e de imprensa e os que defendem que a decisão desmascara a “imprensa militante”.

Centralidade da imprensa tradicional

Perpassando os três eixos do debate, as entrevistas de Lula e Adelio e a repercussão da reportagem da Veja, as menções evidenciaram a centralidade da imprensa tradicional no processo eleitoral: usuários responderam à atuação dos veículos e articularam seus posicionamentos a partir dela. Além disso, a complexidade das decisões judiciais envolvendo a cobertura midiática dos fatos políticos, como as entrevistas do ex-presidente e de Adelio parecem indicar, contribuiu para o acirramento da disputa de narrativas online.

O debate sobre a liberdade de imprensa e regulamentação da mídia movimentou 95,9 mil tuítes. Alguns usuários, sobretudo encabeçados por tuíte do próprio Bolsonaro, defenderam a linha argumentativa de que os apoiadores do candidato seriam os verdadeiros defensores da liberdade de imprensa, em contraposição a partidos e ideologias que demandam a regulação e controle da mídia, citando indiretamente o comunismo e o PT. Houve, ainda, o argumento de que as demandas contrárias às entrevistas e à circulação da revista Veja seriam não uma tentativa de silenciar a mídia, mas de evidenciar sua parcialidade e campanha contra Bolsonaro, já que jornalistas, supostamente, estariam plantando notícias falsas ou recuperando dados antigos e irrelevantes sobre a carreira do presidenciável.

Já comentários minoritários demonstraram preocupação em relação à denúncia de que jornalistas estariam sendo atacados por apoiadores de Bolsonaro devido a seus posicionamentos políticos, e também às decisões contrárias à entrevista de Lula. Sobre o tema, usuários expressaram que a candidatura e a potencial eleição de Bolsonaro seriam catalisadores de censura da mídia, e as proibições uma tentativa de silenciar o ex-presidente.

As principais palavras utilizadas para tratar exclusivamente da imprensa apontam justamente para o debate em torno do papel exercido pela mídia e para questionamentos sobre seu controle e regulamentação, principalmente em contraposição à liberdade de imprensa.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo Abraji (Abraji) divulgou notas em repúdio ao assédio e às ameaças sofridas por jornalistas que publicaram reportagens sobre Jair Bolsonaro. A instituição também afirmou em outro comunicado que “vê com extrema preocupação o fato de ter saído do Supremo Tribunal Federal uma ordem de censura à imprensa e de restrição à atividade jornalística”.