07 out

Com 4,85 milhões de tuítes, eleição é evento com maior impacto na rede

Candidato do PSL teve mais de 2,63 milhão de referências no período; Ciro Gomes, mantendo segundo lugar observado nos últimos dias, registra 1,1 milhão de menções

Atualizado em 10 de outubro, 2018 às 10:33 am

O dia de votação no Brasil teve aquecida presença nas redes sociais ao longo do domingo. Até 22h, com a confirmação do segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, foram registradas 4,85 milhões de referências no Twitter aos candidatos. O volume é o maior já registrado pela FGV DAPP desde 2014 sobre um evento político com impacto nas redes. Discussão sobre possíveis fraudes nas eleições mobilizam 1,22 milhão tuítes até 22h, com destaque para relatos sobre urnas.

O debate cresceu continuamente das 8h ao meio-dia e se tornou mais estável a partir do começo da tarde. Depois das 19h, quando começaram ser divulgados os resultados parciais do primeiro turno presidencial, o debate adotou curva muito ascendente, com 1,94 milhão de tuítes novos até 22h (média de 10,7 mil tuítes/minuto).

Durante todo o dia, Bolsonaro se manteve em distância expressiva para os demais candidatos à Presidência no Twitter, registrando 3,47 milhões de menções até as 22h. Ciro Gomes, que no fim da última semana iniciou expressivo movimento de captação de menções na rede, somou 1,34 milhão de referências no período, bem à frente de Fernando Haddad (646,4 mil). No entanto, com a definição do segundo turno entre o petista e Bolsonaro, Haddad consolidou uma tendência de crescimento, superando Ciro após as 20h.

Jair Bolsonaro

Com o crescimento imediato das menções aos candidatos, após o início da apuração dos votos para presidente, Bolsonaro chegou a 8,4 mil tuítes por minuto, por volta das 19h. Apesar do resultado nas urnas, no entanto, as publicações mais retuitadas sobre o candidato do PSL têm teor crítico e abordam a preocupação de tais usuários com o futuro do Brasil, especialmente com relação à manutenção da democracia e à defesa de minorias. Neste sentido, é recorrente a ideia de que, caso Bolsonaro saia vitorioso do pleito, haverá uma “fuga” do país. O Nordeste é qualificado como “salvador” dessa eleição, por estarem lá alguns dos estados com menor volume de votos para o ex-capitão.

Ciro Gomes

Já o candidato do PDT, com 3,1 mil tuítes por minuto por volta das 19h, está mais associado a mensagens que lamentam a sua derrota para Fernando Haddad. Entre os posts mais retuitados, há, por exemplo, pedidos para que o ex-governador do Ceará se candidate novamente em 2022. Por outro lado, a expectativa de uma “virada”, que havia crescido nos últimos dias na rede, foi alvo de críticas e memes. Vale destacar, ainda, um volume expressivo de publicações que já têm como foco a composição de alianças para o segundo turno, apoiando a transferência de votos do pedetista para o candidato do PT.

Fernando Haddad

Terceiro candidato mais citado até as 22h, com 646,4 mil menções, Haddad apresenta tendência de crescimento no Twitter, desde as 18h, chegando a ultrapassar Ciro após as 20h. A apuração das urnas, apontando, inicialmente, a possibilidade de um segundo turno — resultado que logo depois se confirmaria —, fez com que se multiplicassem menções de apoio ao petista, associadas muito mais a uma pauta “anti-Bolsonaro” do que à afinidade política. Há recorrentes posts que afirmam que o antipetismo deve ser “superado” no segundo turno em prol da defesa de direitos e da democracia.    

Demais candidatos

Marina Silva, na 4ª posição, ora é elogiada por sua trajetória pessoal e política, em tuítes que destacam sua baixa votação como “injusta”, ora é criticada e ironizada pelo resultado do pleito. Já entre as principais menções a João Amoêdo, destacam-se críticas e acusações por usuários que acreditam que, caso o candidato do Novo tivesse desistido da candidatura para apoiar Bolsonaro, não haveria segundo turno. Cabo Daciolo vem em seguida, com destaque para tuítes que questionam e criticam o fato de o candidato ter recebido mais votos do que Marina. Há, ainda, publicações em tom de brincadeira em que se afirma que, caso Bolsonaro vença o segundo turno, as pessoas deveriam ir para o monte, como o pastor. Guilherme Boulos registra crescimento entre 21h e 22h, majoritariamente devido à declaração de apoio a Haddad.

MAPA DE INTERAÇÕES

Entre as 0h e 20h deste domingo (7), foram coletados 3.524.341 tuítes e 2.928.184 retuítes sobre os candidatos à Presidência. Excluídas as contas automatizadas e suas interações no debate, restaram 2.906.424 retuítes e, a partir deles, foi construído o mapa de interações, que mostra seis principais grupos em discussão.

Grupos Rosa e Rosa escuro

Maior grupo em debate (25,8% dos perfis e 16,3% das interações), o grupo rosa é caracterizado por oposição a Bolsonaro e pela defesa de pautas progressistas. Diversas postagens criticaram os posicionamentos de Bolsonaro, considerados pelos perfis do grupo como discurso de ódio. O grupo compartilhou em tom de preocupação, ainda, casos de homofobia ocorridos durante os últimos dias. Parte do grupo também manifestou apoio ao candidato Ciro Gomes, assim como o grupo em rosa escuro, o quarto maior (15,5% dos perfis e 11,3% de interações). Nesse polo, houve forte atuação de perfis sarcásticos, de humor e de posicionamento anti-Bolsonaro e que, desde o fim da última semana, haviam se orientado a apoiar Ciro e Guilherme Boulos — este por conta da fala contra a ditadura no debate da TV Globo. As principais postagens abordaram as vitórias prévias do pedetista em cidades de países estrangeiros, engajamentos irônicos de impulsionamento da hashtag #viraviraciro e críticas a Bolsonaro e a seus eleitores.

Grupo Roxo

O grupo roxo (21% dos perfis e 30,1% das interações), por sua vez, demonstrou apoio majoritário a Ciro Gomes e compartilhou mensagens de suporte ao candidato. Os perfis manifestavam esperança em uma virada de Ciro para ir ao segundo turno e o mencionavam como uma uma terceira via para o país. O grupo também citou casos de homofobia e se opôs de forma veemente a Jair Bolsonaro.

Grupo Azul

De apoio amplo a Bolsonaro, o grupo foi o terceiro de maior participação no debate (17,2% dos perfis e 26,2% de interações) e fortemente concentrado em três eixos: postagens de membros da família Bolsonaro com convites ao voto e mensagens positivas; publicações sobre fraudes nas urnas, com tuíte de Flávio Bolsonaro sendo, com folgas, o mais retuitado e influente do debate (mais de 17.050 compartilhamentos); e, em menor escala, menções que destacam também resultados positivos de Bolsonaro no exterior, principalmente no Japão.

Grupo Vermelho

O grupo (10,3% dos perfis e 11% das interações) apresentou alinhamento político à esquerda, demonstrando apoio aos PT e ao PSOL e seus candidatos, Fernando Haddad e Guilherme Boulos. Os perfis criticaram fala do general Hamilton Mourão sobre branqueamento da raça ao elogiar o neto e o comparam a Hitler. Os eleitores de Bolsonaro também foram criticados pelo grupo por divulgarem fotos supostamente adulteradas das urnas. O grupo também fez comparações entre Bolsonaro e o ex-presidente Fernando Collor.

Grupo Laranja

De forma geral, o grupo laranja (4% dos perfis e 2,3% das interações) demonstrou apoio ao partido Novo e a João Amoedo. O candidato apareceu de forma proeminente em menções que se opõem à ideia do voto útil, além de criticar a quantidade de notícias falsas disseminadas.  Apareceram no grupo também menções ao candidato Cabo Daciolo, que foi lembrado, em formas de memes e piadas, por suas falas.

Desinformação

As discussões sobre práticas ilegítimas durante a votação deste domingo e o debate com informações — confirmadas ou não — sobre problemas nas urnas e acusações de fraude foram o principal subtema dos links compartilhados no Facebook e no Twitter. Das 20 notícias com maior volume de interações das 08h às 20h de domingo, 12 abordaram situações diversas relacionadas ao ato eleitoral, com o link de maior compartilhamento sendo da revista Forum, com 546,3 mil interações, destacando imagens de eleitores de Jair Bolsonaro que usaram armas dentro da cabine de votação.

A terceira notícia com maior volume de engajamento, do portal UOL, também fala sobre o processo de votação, destacando a quantidade de urnas que foram substituídas até as 14h de domingo (190,2 mil interações). O quarto link, da revista “Exame”, aborda uma informação falsa que circulou nas redes sociais, sobre possível manipulação da urna — que, supostamente,  “autocompletava” o voto em Haddad após o eleitor apertar o botão 1. Outras quatro notícias abordavam o mesmo episódio, todas atestando que se tratava de uma notícia falsa.

Outro fato que repercutiu na imprensa foi a publicação de Flávio Bolsonaro, no Twitter, pedindo que eleitores filmassem o voto na urna, o que é proibido pela legislação e foi objeto de três dos 20 links mais compartilhados nas redes sociais. O único link, entre os 20 mais populares, suspeito de propagar desinformação foi também o único a abordar a polêmica das urnas de forma negativa ao candidato do PT, Fernando Haddad: o link descreve suposta mulher que sujou de sangue uma urna e fez defesa do ex-presidente Lula, mas não apresenta provas, confirmações de órgãos oficiais ou apuração que verifique as informações publicadas.