26 jul

Combate à desinformação e ação de robôs são destaques no lançamento

Novos formatos do jornalismo e experiência eleitoral de outros países foram debatidos como formas de tornar o processo eleitoral mais democrático

Atualizado em 26 de julho, 2018 às 3:31 pm

A Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) lançou ontem (25/07)  a Sala de Democracia Digital – #observa2018, projeto de monitoramento do debate público nas redes durante o processo eleitoral. A nova plataforma visa disponibilizar, de forma pública e acessível, análises diárias sobre as discussões de políticas públicas, temas eleitorais e ações de manipulação do processo político, como a presença de perfis automatizados (robôs) e a difusão de notícias falsas.

— O Brasil está no top 5 de usuários de redes sociais. A gente vem de uma situação extremamente polarizada e que vai ser intensificada, então existe uma preocupação. Nosso papel é operar do lado da sociedade civil, dando transparência ao processo — destacou o diretor da FGV DAPP, Marco Aurelio Ruediger. — Nosso monitoramento é um esforço da Fundação, e precisa da colaboração da imprensa e de outros segmentos. O Brasil está polarizado, mas nós precisamos construir algumas pontes. A nossa contribuição é ampliar a informação — finalizou o Ruediger, em nome da Diretoria.

>> Vídeo: Confira a íntegra do evento

O evento de lançamento contou com duas mesas de debate e a participação de  especialistas para debater o impacto das redes sociais nas eleições no Brasil e no mundo. Na abertura, o pesquisador da FGV DAPP, Amaro Grassi, destacou que a Sala de Democracia Digital converge uma série de esforços e trabalhos que vêm sendo desenvolvidos ao longo dos últimos anos.

— A ideia da Sala de Democracia Digital – #observa2018 é ser um projeto que tem um impacto real na agenda pública brasileira, ou seja, fazer um acompanhamento sobre o debate político e eleitoral, monitorar o que os brasileiros falam em relação aos candidatos e à agenda pública, quais são as questões críticas para o futuro do Brasil, e evidentemente com o foco nesse fenômeno global da desinformação, da presença de robôs, das fake news e de como isso pode interferir de forma lesiva ao processo democrático brasileiro. O projeto da Sala é destinado a abordar esse momento da história brasileira em uma perspectiva interdisciplinar, trazendo todos os nossos parceiros para um esforço concentrado de qualificar o debate público que vamos presenciar nos próximos meses — destacou o pesquisador na abertura do evento.

Eleições nas redes sociais

A primeira mesa “Política e Internet nas Eleições 2018: O que esperar sobre o papel da internet e redes sociais nas eleições brasileiras?” teve como participantes o diretor da DAPP, Marco Aurelio Ruediger; Oscar Vilhena; diretor da Escola de Direito FGV-SP; Paula Miraglia, diretora geral do Nexo Jornal; e o jornalista José Roberto Toledo, editor na Revista Piauí. O mediador, Thiago Barbosa, da Rádio CBN, provocou os integrantes da mesa a discutir as mudanças trazidas pelas redes no processo eleitoral e as novas formas de informação.

— Os jornais não têm mais o privilégio de dizer que detêm a verdade. Há muitas vozes no debate. Ignorar isso é correr o risco de ser qualificado como censura — afirmou Paula Miraglia. — Essas eleições, em particular, trazem muitos desafios para o jornalismo. Se provar relevante e ser confiável. A crise que passa o jornalismo é mais do que financeira. É de formato, de conteúdo, de confiança.

Na mesma linha, José Roberto Toledo falou sobre o histórico de campanhas eleitorais no Brasil e o que pode contribuir neste ano para que o jornalismo faça uma boa cobertura.

— A imprensa está tentando se qualificar para a cobertura dessas eleições, apesar da crise vivida pelo jornalismo. Felizmente, iniciativas colaborativas estão aumentando, como uma tentativa de matar um boato pela raiz. Essa é uma estratégia que já foi utilizada com sucesso em outros países e vamos tentar fazer o mesmo aqui — afirmou Toledo.

Para o diretor da FGV Direito de São Paulo, Oscar Vilhena, o diálogo e a interação característicos da internet serão diferenciais na eleição deste ano.

— Nós corremos o risco de ter um monólogo na televisão e um outro debate eleitoral nas redes sociais. Acho que é um processo eleitoral absolutamente sui generis — analisou ele.

A experiência internacional

A segunda mesa de debate, “Política e Internet – A experiência internacional: Que conclusões podem ser extraídas de processos eleitorais recentes pelo mundo? ” teve a participação de Roberta Braga, diretora-associada no America Latina Center do Atlantic Council; Francisco Herrero, diretor para América Latina do National Democratic Institute (NDI); Pedro Telles, representante da Omidyar Network; e Tania Montalvo, editora-chefe no portal de notícias mexicano Animal Político; sob a mediação de Claudia Antunes, editora no Jornal O Globo

Tania Montalvo destacou a importância de mostrar para a população os riscos da desinformação e a importância de identificá-las. Nas últimas eleições do México, o Animal Político lançou o Verificador 2018, um projeto com 90 entidades parceiras, como jornais, organizações civis e universidades.

— O objetivo era difundir informação e chegar a mais gente. Tivemos presença em pelo menos 27 dos 30 estados do país junto dos jornais parceiros. O objetivo principal de difundir informação confiável se cumpriu — destacou. — Algumas das nossas publicações mais vistas durante as eleições do México, que viralizavam, eram vídeos, imagens e postagens tutoriais que ensinavam a detectar e a não compartilhar conteúdo falso.

Pedro Telles também destacou a importância de identificar a ação de robôs e desinformação por meio da educação cidadã. Para ele, a questão vai além de apenas combater conteúdos falsos, baseando-se em números.

— O quebra cabeça da desinformação vai muito além das notícias falsas. 63% da população mundial não sabe distinguir uma notícia falsa de uma verdadeira. No Brasil, esse número está em 67% — disse.

O debate também trouxe a experiência dos think tanks Atlantic Council e National Democratic Institute nas eleições do México e da Colômbia.

— Estamos trabalhando nas eleições do México, da Colômbia e no Brasil. Nossa missão é informar, expor e explicar a desinformação onde e quando ela acontece. Então o nosso time tem uma rede de profissionais em todo mundo, trabalhando com dados abertos — explicou Roberta Braga, do America Latina Center do Atlantic Council.

Neste contexto, Francisco Herrero explicou que o debate eleitoral nas redes sociais forma opiniões e muda o senso crítico das pessoas, porém não faz destes uma verdade.

— Na Colômbia foi debatido um acordo de paz, após mais de 50 anos de conflito armado, e a decisão presidencial foi um plebiscito. O debate público foi muito forte nas redes sociais e as pessoas que apoiavam o sim [para o acordo] achavam que iam ganhar muito fácil porque a maior parte concordava dentro das redes. Os votos não estavam realmente inseridos nas redes sociais. Isso serve para refletirmos que nem sempre o debate nas redes corresponde com o pensamento de grandes grupos que podem não ter acesso fácil às redes sociais — lembrou.