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Declarações falsas sobre gênero marcam debate na RedeTV!

Embora pouco numerosos, perfis automatizados foram responsáveis por cerca de 12,6 mil interações — cerca de 2% dos retuítes registrados

Atualizado em 22 de agosto, 2018 às 5:25 pm

O segundo debate presidencial de 2018, transmitido pela Rede TV! na última sexta (17/08), teve baixa atuação de contas automatizadas em proporção ao total de interações na rede, com 278 robôs. Estes, contudo, foram responsáveis por 12,6 mil interações (2% dos retuítes) — volume relevante dada a alta quantidade de publicações sobre o debate. No que se refere à disseminação de informações e notícias falsas, as declarações sobre o mercado de trabalho para as mulheres destacaram-se e são relacionadas ao crescimento de referências à candidata Marina Silva, que ganhou espaço na rede após o embate com Jair Bolsonaro.

Mapa de interações sobre os presidenciáveis – das 21h de 17.ago às 12h de 18.ago

Fonte: Twitter |Elaboração: FGV DAPP

Conforme ocorrido no debate da Band, um questionamento de Jair Bolsonaro sobre a suspeita de “remoção” de hashtags dos trending topics obteve notável repercussão no Twitter (essa informação foi desmentida, na última semana, pela Agência Lupa — parceira da FGV DAPP na Sala de Democracia Digital — #observa2018). No entanto, não houve a divulgação de notícias ou links, nas redes sociais, repercutindo a queixa.

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Até o debate na Rede TV!, Marina se mantinha com baixa capacidade de atração de perfis e discussões temáticas no Twitter, sem conseguir se posicionar em um núcleo específico de apoiadores. Lula, Ciro Gomes, Bolsonaro e mesmo João Amoêdo, que apresenta baixos números nas pesquisas, já reúnem ao redor de si na rede social grupos próprios de influência, nos quais conseguem obter impacto com o que publicam. Marina, no entanto, apresentava essa dificuldade até sexta-feira. Com a repercussão do embate com Bolsonaro, a candidata da Rede foi “adotada” pelo mais grupo mais volumoso das discussões no Twitter sobre os presidenciáveis.

Análise de perfis automatizados

Fonte: Twitter |Elaboração: FGV DAPP

O mapa de interações gerado a partir de 962.056 tuítes e 621.969 retuítes sobre os presidenciáveis — já com a remoção das interações feitas por contas automatizadas — entre as 21h de sexta-feira (17) e as 12h de sábado (18) mostra que Marina foi a principal influenciadora do grupo laranja, que reuniu 45% dos perfis. As menções do grupo se alternaram entre elogios e agradecimentos à ex-senadora por “enfrentar” Bolsonaro, e publicações de cunho humorístico, que ironizam o deputado federal e outros candidatos. Esse grupo, que, em análises anteriores, normalmente se articulava a partir da oposição a Bolsonaro, desta vez se organizou em função da fala de Marina para criticá-lo, conduzindo a candidata a uma centralidade de impacto na rede social que ainda não havia alcançado nestas eleições.

Fonte: Twitter |Elaboração: FGV DAPP

Bolsonaro e seu grupo estável de apoio estão no núcleo em azul-escuro (26,5% dos perfis) e também se engajaram fortemente para defendê-lo na contraposição a Marina e aos grupos contrários ao deputado federal. A postagem mais retuitada (4.670 vezes) foi uma crítica de Bolsonaro ao Twitter, acusando a rede social de derrubar hashtags nos trending topics. No primeiro debate entre os presidenciáveis, também houve a mesma acusação por parte dos usuários, no entanto, naquela ocasião a informação foi considerada falsa pela Agência Lupa.

Ainda à direita, João Amoêdo — que não participou do debate — reuniu 4,7% dos perfis no grupo em azul-claro, com debate em geral voltado a críticas aos presidenciáveis convidados e à representação política das principais chapas concorrendo à Presidência. O núcleo de apoio a Lula (em vermelho) concentrou 12,4% dos perfis, enquanto o grupo em rosa, também de inclinação à esquerda, respondeu por 7,4% dos perfis. Já a base de apoio de Ciro Gomes (em verde) teve 1,3% dos perfis participantes na repercussão do debate da Rede TV!.

O grupo de Bolsonaro e o grupo petista novamente foram os que mais apresentaram atividade de robôs — 2,6% e 2,9%, respectivamente das interações dos dois núcleos foram identificadas como não orgânicas. Foram poucos os robôs participando da discussão (no total, nos seis principais núcleos, 278 contas automatizadas), mas estes foram responsáveis por 12.600 interações, um número expressivo. O baixo percentual observado na análise decorre, sobretudo, do alto volume de postagens sobre o debate (o grafo reúne 621.969 retuítes). As duas análises são feitas com base em metodologia desenvolvida pela FGV DAPP e que pode ser conferida na seção de metodologia da Sala de Democracia Digital.

Informações “falsas” dos candidatos

A Agência Lupa checou as declarações dos candidatos durante o debate e classificou seis falas como falsas. Entre elas, tiveram destaque no Twitter as que se referem à desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Usualmente com baixo engajamento nas redes, Marina viu as menções ao seu nome no Twitter dispararem após o debate na RedeTV!, em função, especialmente, do embate com Jair Bolsonaro envolvendo o tema. Em 48h (de 20h de sexta-feira a 20h de domingo), foram registradas cerca de 400 mil referências à candidata da Rede – volume 26,5% maior do que o total de citações a ela em todo o restante do mês de agosto. O enfrentamento com Bolsonaro respondeu por 75% dos registros à candidata. E, se somadas as menções aos dois presidenciáveis, foram identificadas 354,4 mil publicações sobre a polêmica durante o debate.

A afirmação falsa de Bolsonaro de que nunca teria defendido que mulheres devem ganhar menos do que homens e a reação de Marina sobre este ponto geraram 23,5 mil referências diretas, ou quase 7% das referências conjuntas aos candidatos — embora tal discussão esteja, indiretamente, relacionada a outras abordagens sobre o embate. Entre as principais menções, a maioria acusa Bolsonaro de ter mentido. Cerca de 3 mil tuítes trazem o link para entrevista que desmentiria a afirmação feita por Bolsonaro. No entanto, alguns usuários, especialmente mulheres, defendem o candidato e afirmam que a falta de igualdade salarial não seria uma realidade e refletiria tentativa de vitimização de Marina.

Já a afirmação de Henrique Meirelles de que 76% das mulheres com mesmo tempo e qualificação exercendo mesmo função não ganham a mesma coisa que os homens também é incorreta, segundo checado pela Agência Lupa, e motivou 1.316 referências ao candidato do MDB. Entre as postagens mais retuitadas, estão críticas a sua postura — não pela incorreção nos dados, mas pela compreensão de que se tratou de uma tentativa de aproximação com os movimentos sociais, o que seria contraditório com sua trajetória política. Também são recorrentes, aqui, afirmações de que não haveria desigualdade de gênero no mercado de trabalho, ao contrário do afirmado por Meirelles.

Economia

No plano econômico, por sua vez, a repercussão das afirmações consideradas falsas dos candidatos durante o debate da RedeTV! foi baixa. A afirmação de Ciro de que as “lideranças de São Paulo” sempre foram contra a criação do IVA — também considerada falsa — não mobilizou debate significativo nas 48h analisadas. Foram 755 referências ao assunto, somadas as menções que foram associadas a Geraldo Alckmin e a Ciro. Quando relacionadas apenas ao primeiro, as publicações dividem-se entre o apoio à medida e uma certa “incredulidade” quanto a sua efetividade. Já nas menções ao tema que se referem ao candidato do PDT, predomina o reforço à informação falsa, por meio de narrativas pelas quais o PSDB teria mudado de ideia e copiado a proposta de reforma tributária de Ciro.

Já a atribuição de autoria do Plano Real ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por Alckmin motivou apenas 663 referências, que ironizam, de modo geral, o erro do candidato tucano. Segundo as postagens mais retuitadas, a fala de Alckmin teria buscado legitimar os governos do PSDB por meio de uma informação falsa, o que apontaria a falta de ações positivas em tais governos. Também foi destacada por alguns usuários a briga entre Alckmin e Ciro pela determinação da “paternidade” do Plano Real.

Já a tentativa de Meirelles de não se identificar como político, destacando sua trajetória no setor financeiro, motivou 1.053 publicações, das quais cerca de 50% referem-se à checagem da Agência Lupa de que a informação é falsa, uma vez que Meirelles foi presidente do Banco Central e ministro da Fazenda. Ele foi criticado pelo que, na opinião de alguns usuários, seria uma tentativa também de se afastar do governo do presidente Michel Temer.