19 set

Discussões sobre voto útil ganham espaço no debate sobre candidatos

Grupo com maior número de perfis em mapa de interações faz críticas a Bolsonaro e discute quem tem mais chances de vencê-lo, Ciro ou Haddad; Mulheres contra Bolsonaro impulsionaram hashtags como #elenão para manifestar oposição ao candidato

Atualizado em 24 de setembro, 2018 às 9:45 am

Passada a centralidade do debate presidencial em torno do ataque sofrido por Jair Bolsonaro no último dia 6, ganharam projeção no Twitter, desde sexta-feira (14), outras duas temáticas: as discussões em torno do chamado voto útil e, relacionada a esta, o voto de mulheres. A criação, e posterior invasão, de uma página no Facebook de mulheres contra Bolsonaro, no fim de semana, impulsionou o uso de hashtags como #elenão, usada para manifestar oposição ao candidato, mas também por apoiadores que reagiram em defesa do deputado do PSL.

Esse debate ampliou uma discussão que já ganhava espaço na rede, à medida que saem novas pesquisas de intenção de voto e discute-se qual candidato seria mais forte para enfrentar Bolsonaro em um segundo turno. O mapa de interações sobre os presidenciáveis, construído com cerca de 2,5 milhões de retuítes coletados de sexta (14) a segunda (17), mostra a presença de sete grupos principais. Em todos eles, o debate apresenta nuances das duas temáticas.

Maior grupo em número de perfis (39,6%) e terceiro maior em interações (13,2%), o grupo rosa tem entre os tuítes de maior repercussão críticas a Bolsonaro e a seus seguidores e que discutem quem teria mais chances de vencê-lo: Ciro Gomes ou Fernando Haddad. Algumas publicações divulgam ou cobram de artistas e marcas seus posicionamentos em relação ao deputado federal. A invasão da página “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” no Facebook também se destaca, junto a acusações contra o presidenciável e parte de seus apoiadores.

O grupo azul, que manifesta amplo apoio a Bolsonaro, é o segundo em número de perfis (21,2%), mas é o que gera mais retuítes: 49,4%. Nele, Bolsonaro é o principal influenciador, com destaque para publicações de sua conta oficial que abordam sua recuperação, criticam o PT e afirmam que não há divisão interna em sua campanha. São recorrentes mensagens de mulheres em apoio ao candidato e em oposição ao movimento #elenão, além de postagens de elogio ao que consideram ser uma postura honesta em uma campanha com poucos recursos.

Mapa de interações sem robôs sobre os presidenciáveis – 14.set a 16.set

Com publicações de apoio a Fernando Haddad, o grupo vermelho (15,7% dos perfis e 22,2% das interações) traz como principais influenciadores o candidato do PT, Manuela D’Ávila, Lula e Lindbergh Farias. A entrevista de Haddad ao “Jornal Nacional” é o tema mais recorrente nas principais publicações, que fazem críticas ao jornalista William Bonner. Também há comparações entre a investigação do assassinato de Marielle Franco e a do atentado a Bolsonaro, além de críticas a este e a seu vice, general Hamilton Mourão. Parte das publicações questiona o voto útil em Ciro, destacando a subida de Haddad nas pesquisas.

O grupo laranja (5,7% dos perfis e 2,7% das interações) é constituído em torno de dois grandes influenciadores: João Amoêdo e Danilo Gentili. O candidato do Novo aparece principalmente em razão de publicações em que critica os partidos de esquerda, o voto útil e os “privilégios” dos políticos. Já o humorista teve grande repercussão devido aos tuítes em que critica e ironiza feministas, questionando por que não votam em Marina Silva e sugerindo que elas decidiram o voto por “obediência” a Lula. A polêmica envolvendo o apresentador aparece também nos grupos anteriores, ora em menções de apoio (azul), ora em críticas (rosa e vermelho).

O grupo rosa escuro — 5,5% dos perfis e 4,2% das interações — destaca o envolvimento de personalidades de fora da política no debate eleitoral. A principal influenciadora é a atriz Deborah Secco, que afirmou em seu Twitter que a hashtag #elenão, contrária a Bolsonaro, não é somente política, mas “moral”. Ainda entre as postagens mais retuitadas do grupo, vale citar aquelas que acusam o candidato do PSL de agressivo e intolerante, diante do ataque à página “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, atribuído por tais usuários a ele e a seus seguidores.

O grupo roxo (4,1% dos usuários e 4,2% dos retuítes) reúne, majoritariamente, perfis de apoiadores de Ciro Gomes. Entre as publicações com maior repercussão destacam-se as que ressaltam que, para derrotar Bolsonaro, a melhor alternativa seria Ciro, uma vez que Haddad sofreria com o “antipetismo” no segundo turno. O candidato do PDT é um dos influenciadores do grupo, especialmente em publicações sobre suas agendas. A discussão entre Ciro e um repórter em Roraima, no fim de semana, aparece em tuítes que acusam o jornalista de ter agido com a intenção de provocar o presidenciável.

Principal influenciadora do grupo verde (3,1% dos perfis e 3,1% de interações), Marina Silva classifica o ataque à página contrária a Bolsonaro no Facebook como um “ato autoritário e inaceitável” e critica as declarações do general Mourão sobre a criação de filhos em lares em que não há figura masculina. Marina também se apresenta como opção de voto com a hashtag #elasim e usa tom conciliador, ao dizer que não abandonaria legados do PT e do PSDB caso eleita. Geraldo Alckmin também aparece no grupo ao afirmar que é a melhor opção de voto para os eleitores que querem evitar um governo do PT.

A disputa de hashtags

Na análise específica do uso das hashtags #elenão, #elenunca, #elejamais, #elesim, #elasim e #elesim17, que engajaram discussões emergentes durante o fim de semana em apoio e rejeição a Bolsonaro e, posteriormente, de apoio a Marina Silva, foi parecida a composição dos grupos que se manifestaram no Twitter, em relação ao debate geral sobre os presidenciáveis. O único grupo alinhado a Bolsonaro (em azul, com 20,8% dos perfis) reutilizou a hashtag #elenão para responder a críticas direcionadas ao deputado e lançou a hashtag #elesim para manifestar apoio e “reequilibrar” a polarização na rede. Os outros grupos principais da discussão, porém, opuseram-se ao campo favorável a Bolsonaro. O maior grupo do grafo, em rosa (26,4% dos perfis), reúne perfis e subtópicos comumente identificados com os núcleos não alinhados a nenhuma candidatura, no debate político, mas organizados em função da rejeição ao candidato do PSL. Encontra-se próximo do grupo em rosa escuro (21,6%), o segundo maior do grafo, e que, para além do compartilhamento de hashtags críticas a Bolsonaro, discute o engajamento político de celebridades e artistas nas redes sociais.

Mapa de interações sobre as hashtags #elenão, #elenunca, #elejamais,
#elesim, #elasim e #elesim17 –  14.set a 16.set

Alinhado ao PT e ao PSOL, o grupo vermelho reuniu 20,2% dos perfis e também interagiu bastante com perfis e com os temas abordados no grupo em rosa, com Deborah Secco igualmente despontando como principal influenciadora do debate, junto a Manuela D’Ávila. A base de apoio a Ciro Gomes (em roxo, 4,3%), que havia se distanciado do polo pró-PT nas últimas semanas, foi outra a interagir com a atriz e com as demais influenciadoras do conjunto formado pelos núcleos pró-PT e antiBolsonaro, como Manuela, unificando os campos que se manifestaram em oposição ao deputado.

Já o grupo de apoio a Marina Silva, em verde (5% dos perfis), apesar de elos de engajamento e concordância com os demais grupos, sob o ponto de vista da rejeição a Bolsonaro, mobilizou-se, de forma mais específica, em função do impulso a Marina. Essa base reuniu também outros atores políticos próximos à candidata da Rede, influenciadores do Twitter e perfis de cidadãos comuns que, para além de destacar a importância do #elenão, reiteram a relevância do voto em uma mulher nas eleições presidenciais.