28 set

#ElectionWatch: Informação inverídica supera conteúdo factual

Análise do Atlantic Council, parceiro da Sala de Democracia Digital, mostra que fontes de baixa credibilidade conseguiram atrair mais engajamento do que veículos tradicionais

Atualizado em 1 de outubro, 2018 às 11:43 am

Uma análise das 20 notícias sobre corrupção que geraram mais engajamento nas redes sociais este ano mostra que fontes de baixa credibilidade conseguiram atrair mais engajamento do que veículos tradicionais.

Dentre as 20 notícias que atraíram mais interações no Facebook e no Twitter entre fevereiro e agosto deste ano, cinco não eram confiáveis: quatro eram inverídicas e uma foi publicada por um site que fazia parte de uma rede de desinformação. Além disso, uma foi criada por uma publicação de humor. Entre os quatro artigos mais populares, três estavam nestas categorias.

O estudo desses artigos, que ganharam popularidade apesar de serem inverídicos ou de fontes não confiáveis, fornece insights sobre aspectos importantes no estudo da desinformação: o tipo de conteúdo que está sendo criado, a motivação por trás da criação deste conteúdo e as formas como informação incorreta e desinformação se espalham.

Análises dos artigos

Olho Aberto Paraná: “Brasil poderá ter intervenção militar para por fim a corrupção política

 

O artigo afirmava que já havia mobilização de tropas do Exército para realizar uma intervenção militar anti-corrupção. Apesar do fato de isso não ter ocorrido e da ausência de indícios dessa possibilidade, o “Olho Aberto Paraná” não publicou nenhuma correção.  Dias depois, republicou um áudio que circulava no WhatsApp em que um suposto porta-voz do Exército confirmava que a intervenção era iminente. O Exército negou a veracidade do áudio, mas de novo não houve correções.

A motivação por trás da publicação deste artigo não está clara. Olho Aberto Paraná é um site hiper-local do Paraná, estado em que a Lava Jato teve início.  O site publica notícias locais e têm anúncios em forma de posts. O site se intitula o mais acessado do estado.

O artigo sobre a intervenção obteve 791,3 mil interações, a maior parte no Facebook. Seu sucesso pode estar ligado à data em que foi publicado, 24 de maio, no auge da greve dos caminhoneiros. Parte dos manifestantes pedia uma intervenção militar no país.

Grande parte das páginas e grupos que se envolveram com o artigo e o disseminaram nas redes sociais também eram defensores de intervenção militar, além de compartilharem o forte sentimento anti-corrupção.

 Sensacionalista: “Após 518 anos, Brasil finalmente se livra da corrupção para sempre

Este artigo foi publicado pelo Sensacionalista, site de humor inspirado pelo americano The Onion. Criado em 2009, o Sensacionalista aumentou sua popularidade com crise política e econômica que teve início em 2014. A página do Facebook do Sensacionalista tem mais de 3 milhões de curtidas, e o grupo tem 1,66 milhão de seguidores no Twitter. O Sensacionalista, que também publica artigos sobre temas não políticos, se descreve como isento e publica sátiras sobre diferentes campos políticos.

O artigo do Sensacionalista foi publicado com contexto da rejeição do STF (Supremo Tribunal Federal) do pedido de habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – decisão que acabou resultando na prisão do petista. O título ironiza a ideia de que o PT é o único partido corrupto no país.

A notícia do Sensacionalista teve 570.421 engajamentos, a maioria curtidas, comentários e compartilhamentos no Facebook. Apesar de sátiras não terem a intenção de enganar o público, elas têm “o potencial de enganar” as pessoas, causando confusão.

A maioria das interações com o artigo foi feita por perfis de tendência de esquerda, que aparentemente estavam cientes do tom de ironia da publicação. Porém, alguns usuários do Facebook viram a manchete e não entenderam que era uma ironia – disseram, por exemplo, que os autores estavam enganados, que outros partidos também eram corruptos e um deles chegou a dizer que denunciaria o conteúdo como falso ao Facebook.

The Folha: “FBI informa que o Brasil vendeu o jogo contra a Alemanha em esquema de corrupção

“The Folha” é um site hiperpartidário que publica notícias sobre política e corrupção, muitas a respeito de Lula e do juiz Sergio Moro, responsável pela Lava Jato. O artigo mistura notícias falsas antigas, como a corrente de que dizia que o Brasil havia vendido o jogo para a França na final da Copa de 1998, com notícias sobre a investigação do FBI sobre a Fifa e o futebol internacional. Porém, o FBI não fez acusações relacionadas a esta partida. O artigo teve 450.100 interações, a maioria vindo de grupos pró-Moro e anti-PT no Facebook.

Conteúdo semelhante foi publicado pelo site “Sempre Questione”, que também entrou na lista dos artigos com mais interações nas redes. “Sempre Questione” é um site que publica sobre temas variados, como assuntos internacionais e de saúde. O artigo sobre o jogo da Alemanha foi publicado em 3 de março – depois da publicação do The Folha – e gerou 80 mil interações.

O Diário Nacional: “Dodge denuncia Aécio por corrupção e obstrução de justiça

“O Diário Nacional” já foi descrito pela Revista Época como um site de “fake news” altamente partidário. A página do Diário Nacional foi das 196 removidas pelo Facebook em julho sob acusação de participar de uma rede de desinformação coordenada pelo MBL (Movimento Brasil Livre).  Em um comunicado, a empresa descreveu as ações do MBL como “uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão”.

O artigo que entrou na lista dos mais populares não apresentava conteúdo factualmente incorreto. Era a reprodução de uma matéria publicada pelo site Midia Max, do Mato Grosso do Sul, sobre acusações feitas contra Aécio Neves (PSDB). Misturar conteúdos corretos com notícias falsas é um comportamento recorrente em sites como “O Diário Nacional”.

A notícia do Diário Nacional recebeu 146 mil interações, impulsionada pelas páginas do MBL e do vereador Fernando Holiday, ligado ao movimento, no Facebook. Também gerou engajamento em páginas regionais do movimento, além de grupos pró-Bolsonaro e grupos de apoio a Moro.

Aconteceu, virou manchete: “Juízes emitem nota afirmando:” quem critica auxilio-moradia é a favor da corrupção”

Este artigo era a reprodução de um post publicado em outro site, o esquerdista “A Postagem”. “Aconteceu virou Manchete” deixa claro que a nota é uma reprodução, mas altera a chamada, que ganha um tom mais “hard news”.

O título de A Postagem era “Associação de juízes emite nota surreal afirmando que quem é contra o auxílio moradia é a favor da corrupção: no estilo ‘Judiciário, ame-o ou deixe-o.” Já no “Aconteceu, virou manchete”, o texto virou “Juízes emitem nota afirmando: “Quem critica auxílio-moradia é a favor da corrupção”. Como a afirmação vem entre aspas, passa a impressão de que é uma reprodução exata da fala da associação – o que não é verdade.

O texto mostra que, em uma carta, o presidente da associação disse: “A quem interessa essa campanha? A quem trabalha contra a corrupção e pelo Estado de Direito ou aos corruptos?”.

Não é possível saber se a alteração foi feita com a intenção de gerar confusão ou se foi um caso de má prática jornalística. “Aconteceu Virou Manchete” reproduz posts de diversos sites, a maioria de esquerda. O artigo gerou 90.400 interações, a maioria de páginas de Facebook ligadas à esquerda.

Mapeando interações

Analisados juntos, esses casos mostram como informação de baixa credibilidade foi disseminada no Brasil este ano.

Na imagem, cada círculo representa uma conta de redes sociais que postou alguma das notícias incorretas descritas acima. O tamanho dos círculos mostra o número de artigos que cada página compartilhou. Ou seja, um círculo maior mostra uma página que compartilhou mais de um artigo não confiável. Por exemplo, os círculos Lula Livre (Pérola dos Coxinhas) e União das Esquerdas, ambos de esquerda, compartilharam 4 das 6 histórias inverídicas.

A maioria das pessoas que postou os artigos nesses dois grupos não escreveu, nos posts, que as informações não estavam corretas, o que sugere que elas não reconheceram que o conteúdo não era verídico. Mesmo o artigo do Sensacionalista levou a críticas de pessoas que não perceberam a ironia.

A cor dos círculos mostra as páginas e grupos que geraram mais interações com os artigos. É possível observar que o Sensacionalista gerou o maior número de interações, seguido pelo “Quebrando o Tabu” e o MBL.

Conclusão

A análise dos 20 artigos mais compartilhados sobre corrupção no Brasil sugere implicações em três temas principais.

Primeiro, em relação ao tipo de conteúdo que está sendo criado e compartilhado, é possível observar diversos tipos diferentes de informação não verídica. Alguns posts foram completamente fabricados, como o que falava sobre a intervenção militar. Também há casos de falsas conexões, como na matéria em que o título levava a acreditar que o conteúdo do texto era distinto. Por último, o Sensacionalista faz um artigo que claramente não tem intenção de provocar danos, mas mesmo assim causou confusão entre leitores. Esses casos diferentes são indicativos de um espaço político extremamente dividido que virou ambiente propício para a circulação de informações não confiáveis.

Segundo, sobre a motivação por trás da criação de conteúdo, a maioria dos sites analisados trabalhavam exclusivamente com noticiário político, o que sugere que seu maior objetivo é influenciar pessoas politicamente. Há casos, porém, em que má prática de jornalismo também pode ter tido um papel importante.  Duas exceções são o “Olho Aberto Paraná” e o “Sempre Questione”, que publicam notícias sobre assuntos variados. Isso pode indicar que há uma busca por cliques para aumentar sua audiência, sugerindo a busca de lucro como motivação. Por fim, o Sensacionalista é um site que tem a intenção clara de criar sátiras.

Por último, sobre a distribuição de conteúdo, a análise aponta para dois tipos distintos de distribuição. A maioria dos artigos foi disseminada por usuários que compartilharam o conteúdo sem verificar sua veracidade. Porém, o Diário Nacional fazia parte de uma rede mais organizada, com páginas dispostas a disseminar um tipo específico de conteúdo. A polarização extrema do Brasil também tem um papel na disseminação de conteúdo, com dois grupos principais: à direita, grupos anti-corrupção e às vezes pró-militar, e a à esquerda grupos póo-Lula e ligados a defesa de causas sociais.

Essas conclusões demonstram o tamanho do desafio que informação inverídica representa para o Brasil e o risco que ela representa nas eleições. A multiplicidade de fontes de informação inverídica e a variedade por trás da criação deste conteúdo mostram as múltiplas estratégias necessárias para combater o problema.

Além disso, a respeito da forma como notícias incorretas se espalham, será preciso não apenas aumentar a vigilância sobre grupos que espalham boatos e mentiras, mas também aumentar a “alfabetização digital” para que cada pessoa possa checar – ou ao menos suspeitar – de conteúdos inverídicos que recebem online de forma independente.

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Luiza Bandeira é assistente de pesquisa forense no @DFRLab.

#ElectionWatch Latin America é uma colaboração entre o @DFRLab e o Adrienne Arsht Latin America Center no Atlantic Council.