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#ElectionWatch: “Likes” à venda no Brasil

Atlantic Council, parceiro da Sala de Democracia Digital, expõe uma rede brasileira que troca cliques por dinheiro

Atualizado em 29 de agosto, 2018 às 11:38 am

Um grupo de jovens brasileiros montou uma rede de perfis no Facebook, Instagram e Twitter para trocar engajamento (curtidas, seguidores e páginas) por dinheiro.

A rede esteve envolvida em ações de promoção artificial de conteúdo político durante a campanha eleitoral no México. Com a aproximação das eleições no Brasil, ela tem a possibilidade de reproduzir as operações em seu próprio país.

Interferência no México

O DFRLab já havia escrito sobre como o autodenominado “rei das fake news” do México promovia seu conteúdo com centenas de reações de usuários estrangeiros tanto no Twitter quanto no Facebook. No Facebook, muitos desses usuários afirmavam que estavam localizados no Brasil.

Mais de cem deles diziam trabalhar para uma página brasileira no Facebook chamada “Frases & Versos” (arquivada aqui). A maioria parece ser muito jovem, com idades de estudantes do ensino médio ou universidade; muitas contas foram criadas em setembro de 2017. Para ilustrar, reproduzimos aqui o perfil de três deles.

Da esquerda para a direita: Perfis de “Nicolley D. Pereira,” “Eduarda Vitória” e “Weverton Dos Santos Jr.”; todos curtiram posts mexicanos e dizem trabalhar página Frases & Versos. Perceba a data em que Pereira e Vitória entraram na rede. Todas as contas foram arquivadas em 7 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Nicolley D. Pereira / Eduarda Vitória / Weverton Dos Santos Jr)

Esse tráfego não era orgânico. A reação a dois posts extremamente partidários no México – um da página NOalPeje1 e outro da Hablando de Politica — não apenas vieram de contas brasileiras: vieram das mesmas contas brasileiras, que reagiram na mesma ordem (apesar de algumas terem reagido ao primeiro post, mas não ao segundo), como esta imagem mostra.

Esquerda: Reação de tristeza ao post da NOalPeje1. Direita: Reações de raiva ao post do Hablando de Politica. Os boxes coloridos mostram como as contas que curtiram o post da esquerda também curtiram o da direita, na mesma ordem. Arquivado em 25 e 26 de junho de 2018. (Fonte: Facebook / NOalPeje1 / Hablando de Politica)

Além disso, uma das primeiras contas a curtir esses posts, “Viitor Sillva”, usava como foto de perfil uma imagem da atriz Chantal Goya. O uso de fotos de perfil de figuras públicas é uma forma comum de mascarar contas falsas ou automatizadas.

Esquerda: foto de Chantal Goya. Direita: perfil de Viitor Sillva. Arquivado em 7 de julho de 2018. (Fonte: thepinsta.com / Facebook / Viitor Silva)

A presença de diversas reações, todas do mesmo tipo, vindo de países diferentes, sugere que as curtidas não foram resultado de interesse orgânico, mas de alguma forma de transação. O fato de que tantas contas fizeram a mesma coisa na mesma ordem é um forte indicativo de que elas são automatizadas.

As reações à postagem do México parecem, portanto, ter se originado de uma operação brasileira especializada em fornecer um aumento artificial do engajamento a conteúdo no Facebook. Esses esquemas normalmente são chamados de “fazenda de curtidas”. Essa fazenda parece estar associada à página Frases & Versos.

Vendas no Brasil

A Frases & Versos é uma página curiosa. Na seção “sobre”, afirma que oferece poesia e humor; na página de perfil, afirma que é uma página dedicada à agricultura. Ela não posta conteúdo próprio, mas normalmente compartilha artigos de outras fontes, normalmente notícias sensacionalistas, ou “clickbaits”.

Apesar da falta de conteúdo original humorístico, de poesia ou até de agricultura, a página tinha mais de 5 milhões de likes em 5 de julho de 2018. Para efeito de comparação, a página da CBF tem 12 milhões de curtidas.

Assim como no caso do México, um número considerável de curtidas da Frases & Versos veio de contas aparentemente asiáticas, principalmente da Índia, o que reforça a impressão de amplificação artificial.

Arquivado em 3 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Frases & Versos)

Parte da explicação pode ser obtida ao analisar os administradores das páginas. Dois deles têm o mesmo nome, “Anderson Leite.” O nome de usuário de um deles é Leitenovinho — novo sugere que o usuário teve outra conta anteriormente; o outro é Leitereserva2, o que indica que o mesmo usuário também teve outra conta com o mesmo nome. Isso indica uma violação das regras de comunidade do Facebook, que afirmam que um usuário não pode manter múltiplas contas.

Perfil de Anderson Leite, leitenovinho. Repare nas letras PCSD. Arquivado em 7 de julho, 2018. (Fonte: Facebook / Anderson Leite)

A conta do “Leite Novinho” lista, em sua página de perfil, as letras PCSD. Uma busca por essa combinação de letras no Facebook levou a uma rede de páginas:

Em 7 de julho, as duas páginas “oficiais” estavam inativas havia quase um ano. O grupo fechado demonstrava sinais de hiperatividade, com 687 posts naquele dia, e mais de 10.000 no último ano. Ele definia seu objetivo como:

“Reunir todos os administradores de páginas do Facebook para troca de conhecimento, negociações e lucros utilizando a rede social.”

A referência a “negociações e lucro” indica claramente o objetivo comercial do negócio.

Página de perfil SemprePCSD, mostrando atividade recente de julho de 2017. Note also the link to other pages in the network. Arquivado on July 3, 2018. (Source: Facebook / SemprePCSD).

RegistroDeTrocasPCSD era uma página memorável. Com uma abertura surpreendente, continha posts de membros do grupo descrevendo como trocavam várias curtidas, compartilhamentos e páginas do Facebook, Instagram e Twitter por dinheiro e pagamentos na plataforma Paypal.

Alguns usuários até postaram fotos de comprovantes bancários, com seus detalhes pessoais, para provar que a venda havia sido feita, e quanto haviam recebido. O post abaixo é um exemplo. O @DFRLab tornou a publicação do recibo anônima.

“Post arquivado em 7 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Registro de Trocas PCSD)

As trocas são uma leitura fascinante. Por exemplo, no dia 13 de setembro de 2017, o usuário Andre Junior postou uma reprodução da tela de parte de uma conversa com João Pedro Peixoto. A descrição da foto indica que se tratava da venda de um compartilhamento no Facebook; na imagem, Peixoto dá o nome do artigo que deveria ser compartilhado, e pede que um comentário específico seja feito.

Uma busca no Facebook levou a este compartilhamento, feito por uma página de humor chamada “Biscatiane,” com o comentário exato requisitado por Peixoto. Por sua vez, o artigo original levou a este post de uma página chamada “anastomosepoesia.” Segundo a seção “sobre” da página, Peixoto era um de seus endereços de contato.

Esquerda: Conversas postadas por Andre Junior. Direita: Compartilhamento de Biscatiane. Repare no comentário “Se puder, legenda: ‘Que texto!’ e o mesmo texto na direita, com um emoji. Todos os links arquivados em 4 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Andre Junior / BiscatianeOficial)

A análise das evidências demonstra que o post de Andre Junior retrata uma transação genuína: dinheiro em troca de um like da página Biscatiane, que tinha mais de um milhão de curtidas no dia 5 de julho.

Outro post do mesmo usuário registra a venda de um compartilhamento no Facebook para uma “Raquel Oliveira.” Oura vez este link levou para a página Biscatiane , e para o compartilhamento de uma notícia de um site chamado br.blastingnews. A notícia original foi escrita por uma “Rakel Liver”; a foto de perfil na página sobre a autora era a mesma à foto mostrada no printscreen de Andre Junior.

Esquerda, acima: Post da página PCSD mostrando o link a ser compartilhado, uma miniature do título da notícia a ser compartilhada, e imagem de banner, e o perfil do cliente. Acima, à direita: Compartilhamento postado pela página Biscatiane, mostrando a notícia e o banner. Inferior, esquerda: conversa em destaque, mostrando a foto de perfil da cliente. Inferior, dirta: Foto de perfil “Rakel Liver,” redatora no br.blastingnews.com. Todos os posts arquivados em 4 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Andre Junior / Biscatiane / br.blastingnews.com)

Muitos usuários, muitas plataformas

As atividades do grupo não se restringiam à venda compartilhamentos no Facebook. Vários posts registravam a venda de páginas completas, como essa de Wesley Rodrigues.

Registro de venda por Wesley Rodriguez. Arquivado em 14 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Wesley Rodrigues)

Esse post registra uma conversa sobre a venda de uma página (provavelmente do Facebook, mas não é possível afirmar isso de forma conclusiva) para um cliente chamado “Raoni Souza”. O usuário não foi marcado no post, mas uma busca no Facebook levou a esta conta; uma de suas fotos de perfil é a mesma que aparece no post de Rodrigues.

Direta, acima: Registro de venda. Esquerda, acima: Conversa ampliada mostra a foto de perfil. Esquerda, abaixo: Antiga foto de perfil da página de Raoni Souza. Posts arquivados em July 4, 2018. (Source: Facebook / Wesley Rodrigues / Raoni Souza)

O post de Rodrigues não disse qual página ele comprou.

Uma segunda venda de página feita por um Renato Machado era menos detalhada, mas citava “Cintia Canário” como intermediária. Uma conta com esse nome era uma das administradoras da página Frases & Versos, junto a outras páginas com um número tão alto de likes em seu conteúdo que levanta suspeitas.

Isso reforça a impressão da existência de uma comunidade coesa em torno do grupo PCSD, com a página Frases & Versos como associada.

Outro post era mais conclusivo, registrando a venda, em 3 de fevereiro, de uma página chamada “Eu e você amor,” apontada como tendo 121 mil likes, por R$ 300. Uma busca por nome levou a esta página, que tinha 128.508 curtidas em 6 de julho de 2018.

Esquerda: Registro de venda. Direita: Página em questão, mostrando likes no canto inferior direito. Arquivado  em 4 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Renerio NetoEu e você amor)

As próprias curtidas também eram monetizadas. Um post registrou a venda de 10 mil likes no Facebook para Leandro Oliveira, por US$ 60. A captura de tela cita a página alvo como uma comunidade chamada “Desimpedida.” Uma busca por uma página com este nome levou a esta página, que tinha 14 mil likes em 4 de julho de 2018. Nesta data, a seção “sobre” da página mostrava “Leandro Oliveira II” como membro da equipe; a informação foi removida no dia 7 de julho.

Acima: Registro de venda, mostrando Desimpedida com site e Leandro Oliveira como cliente. Abaixo: Tela mostra página da Desimpedida page e a integrante da equipe. Posts arquivados em 3 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Duda Amorim / Desimpedida)

O Twitter e o Instagram também proporcionavam oportunidades comerciais. Esse post (arquivado aqui) registra a venda da página de Twitter de um usuário, @maikkwe, para um usuário com nome Higor José. O mesmo usuário também disse ter vendido sua página de Instagram.

Quando verificada em 4 de julho de 2018, a página do Twitter só havia sido usada para postar uma vez, mas tinha a nota bibliográfica “Tô no @higorduxo”. Isso levou a uma conta de Twitter humorística com mais de 50 mil seguidores; isso, por sua vez, levou a uma conta de Instagram que havia postado apenas uma vez, mas tinha mais de 11 mil seguidores.

A discrepância no número de posts e seguidores sugere que os seguidores do Instagram também haviam sido comprados.

Este post registra a negociação de uma página (provavelmente do Facebook) por uma conta de Instagram com o nome de “Débora Mirson”. Esse nome pertencia a uma página de Facebook  que, por sua vez, levava a uma conta de Instagram . As páginas do Facebook e do Instagram tinha a mesma foto de perfil.

Acima, direita: Registro da venda. Esquerda, acima: Foto de perfil do cliente. Abaixo, esquerda: perfil de Facebook de Débora Mirson. Direita, abaixo: perfil do Instagram. Todas as páginas arquivadas em 4 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Kayque Lima / Débora Mirson / InstagramDébora Mirson)

No dia 4 de julho, a conta de Instagram nunca havia sido usada para postar, mas já tinha mais de mil seguidores. Novamente, é extremamente difícil dizer que resultado de um interesse orgânico da vida real; é bem mais provável que seja resultado do trabalho do grupo PCSD.

Esse post registra até a transação em dólares ante um pagamento no PayPal, o que indica um troca de moedas feita no mercado negro.

“Troca: $250 Paypal por $200 caixa.” Arquivado em 7 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Marcilio Leal)

Em outra frente, diversos posts recentes da Frases & Versos marcaram um usuário indiano do Facebook chamado Mohd Ameen.

Arquivado em 7 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Frases & Versos)

Em 6 de julho de 2018, esse usuário tinha um número desproporcional de seguidores brasileiros ou que falavam português, incluindo pelo menos um usuário de Moçambique.

Contas seguindo Mohd Ameen, arquivadas em 7 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Mohd Ameen)

Embora seja necessário ter mais provas para ter certeza, isso sugere que a marcação da Frases & Verso em posts que não tinham relação com Ameen ou com a Índia foi uma forma de levar os brasileiros a seguir o indiano.

Quem engana os enganadores?

A dimensão da organização do PCSD é visível por sua vigilância interna. Uma página separada, AssessoriaSemprePCSD , lista membros que foram suspensos por violações.

Uma delas se chamava Giovanni Pellegrini (arquivado aqui) outra administradora da Frases & Versos, banida por supostamente falhar em cumprir um acordo.

Nota sobre Giovanni Pellegrini, arquivada em 7 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Assessoria de Comunicação PCSD)

Esta imagem, por exemplo, mostra os motivos para a suspensão de Giovanni Pellegrini/Giovanne Alves, por não cumprir o acordo com Wilson Carlos

Outro suspenso foi Erlon Ó Lôñ ou Erlon Nsc, por suposta tentativa de roubo.

Arquivado em 7 de julho de 2018. (Fonte: Facebook / Assessoria de Comunicação PCSD)

Esses posts mostram o grau de transparência e de organização da comunidade, próprios de uma organização de larga escala que funciona com base na confiança.

Conclusão

A rede em torno da PCSD e da Frases & Versos é altamente ativa, bem estruturada de uma forma incomum, e aparentemente internacional em seu alcance. Contas ligadas à rede amplificaram polêmicas relacionadas às eleições no México, e podem ter fornecido seguidores para usuários na Índia.

A rede também é notavelmente aberta. Transações do PCSD, registros de transgressores, e até detalhes bancários de alguns usuários são postados abertamente. Administradores usavam contas múltiplas com nomes semelhantes para administrar as páginas.

Essa ampla rede de negócios de curtidas, venda de páginas e compartilhamentos comerciais tem o potencial de distorcer o debate online na campanha eleitoral brasileira, permitindo que clientes criem uma falsa percepção de popularidade ao dar a eles falsos likes e seguidores, como ocorreu no México.

Esta rede também mostra o quanto as redes sociais precisam avançar para combater esse tipo de negócio online. A venda de páginas é proibida pelas leis do Facebook; vender curtidas e compartilhamentos em escala industrial é, no mínimo, questionável, devido à ênfase que a rede dá a conteúdo original.

Questões semelhantes surgem com respeito ao comportamento do grupo no Twitter e no Instagram.

O grupo se esforçou para tornar suas atividades públicas: alguns dos posts, embora não todos, detalham as contas, números e quantias envolvidas; e alguns usuários que não postaram capturas de tela como prova de terem fechado negócio foram repreendidos. Apesar disso, a rede parece ter ficado ativa por mais de um ano, operando com aparente impunidade.

Essa é uma lição crucial para as plataformas, e o tempo é curto. A eleição no Brasil é em outubro, as eleições legislativas nos Estados Unidos em novembro, e as eleições da África do Sul e da Índia no ano que vem. Empresas de redes sociais começaram a confrontar o problema de notícias e contas falsas, mas ainda têm um longo caminho a percorrer até alcançar os grupos que operam em sua plataforma abertamente, a luz do dia.

 

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Ben Nimmo is Senior Fellow for Information Defense at the Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab (@DFRLab).

Maria Fernanda Perez Arguello is a Project Associate with the Adrienne Arsht Latin America Center at the Atlantic Council.

Jose Luis Peñarredonda is a Digital Forensic Research Assistant at @DFRLab.

Kanishk Karan is a Research Intern at @DFRLab.

#ElectionWatch Latin America is a collaboration between @DFRLab and the Adrienne Arsht Latin America Center at the Atlantic Council.

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