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Homicídios e roubos se destacam no debate sobre segurança nas redes

Posições defendidas por candidatos contribuíram para impulsionar o debate, especialmente falas de Bolsonaro sobre drogas e aborto

Atualizado em 23 de agosto, 2018 às 11:12 am

A análise das publicações sobre segurança pública no Twitter, entre os dias 14 de julho e 12 de agosto, aponta que a discussão foi pautada, principalmente, pelos temas: homicídios (mais de 1,1 milhão de postagens), violência de gênero (cerca de 862 mil) e roubos (quase 855 mil). O primeiro e o terceiro assuntos apresentam certa estabilidade ao longo de todo o corte temporal, com relatos de experiências pessoais e críticas à incitação de violência por parte de figuras públicas. Já as referências à violência de gênero variam em função da mobilização da imprensa diante de alguns casos que causaram comoção popular, como o estupro de uma menina de quatro anos no Rio de Janeiro, que foi responsável pelos picos de postagens entre os dias 07 e 09 de agosto e pelo post mais retuitado do período.

As opiniões defendidas por presidenciáveis também mobilizaram o debate, com destaque para as falas de Jair Bolsonaro sobre a não legalização de drogas, a criminalização do aborto e a castração química de estupradores. A participação do candidato no programa “Roda Viva” no dia 30 de julho contribuiu para o segundo maior pico de menções a temáticas de segurança no período.

Volume de publicações no Twitter – de 14 de julho a 12 de agosto

Fonte: Twitter|Elaboração: FGV DAPP

O terceiro maior pico de audiência na rede ocorreu no dia 27 de julho, repercutindo o caso em que o youtuber Everson Zoio narra um episódio de sexo não consentido com a ex-namorada em um dos vídeos de seu canal — que possui mais de 9,9 milhões de inscrições. As discussões sobre o tema mobilizaram a segunda e a terceira postagens mais compartilhadas do período no Twitter, que criticaram o comportamento do youtuber.

Principais temas no Twitter – 14 de julho a 12 de agosto

Fonte: Twitter|Elaboração: FGV DAPP

Homicídios e roubos

Além de uma discussão mais geral sobre as mortes violentas em grandes cidades, as menções sobre homicídios abordam casos de feminicídio, como o da advogada Tatiane Spitzner, encontrada morta após cair da janela de seu apartamento e de sofrer agressões de seu marido. O caso também motivou postagens com o objetivo de instruir as usuárias sobre como agir diante de situações de violência. Foram destaque ainda publicações sobre o aniversário de 12 anos da Lei Maria da Penha.

Casos de violência cometidos por policiais, como a morte de um jovem de 16 anos, no Rio de Janeiro, e contra policiais, em especial a morte da policial Juliene dos Santos, em São Paulo, também tiveram grande repercussão nas redes.

Na categoria roubos, uma em cada dez publicações destaca, em teor irônico, a sensação de insegurança vivenciada pelos usuários. Há, ainda, relatos pessoais sobre roubos e assaltos, além de orientações sobre como se proteger de tais situações. Menções ao presidenciável Jair Bolsonaro também se destacam neste debate.

Violência de gênero

Estupro foi o assunto mais mencionado em violência de gênero, mobilizando aproximadamente 573 mil tuítes — 66% das menções da categoria e 12% do total de publicações. Além disso, as discussões sobre o tema foram responsáveis pelos tuítes mais compartilhados de todo o período. Nesse contexto, destacam-se posts em que usuários se dispõem a auxiliar na resolução de crimes ou compartilham informações supostamente úteis para a comunidade. O caso mais comentado envolve a divulgação de informações sobre um suposto acusado de estuprar uma menina de quatro ano no Rio.

O caso do youtuber Everson Zoio também teve grande repercussão, assim como as críticas à chamada “cultura do estupro”. Os usuários questionam, por exemplo, a abordagem dos meios de comunicação sobre as narrativas que expõem as vítimas e retiram a responsabilidade dos agressores.

Narrativas eleitorais

A análise das discussões sobre segurança pública mostrou um debate bastante pulverizado. A partir das 4,1 milhões publicações coletadas no Twitter sobre o tema entre os dias 14 de julho e 12 de agosto, é possível observar que nove grupos se formaram em torno dos debates — sendo que a maior parte deles se organiza em torno da discussão sobre violência de gênero. Com a análise dos cinco maiores grupos, observa-se que dois deles — o rosa escuro e o azul escuro — apresentam viés mais polarizado sobre as pautas de segurança: o primeiro alinhado a pautas convencionalmente associadas à esquerda e o segundo, a uma agenda mais conservadora. Tais núcleos repercutem propostas e falas de candidatos à Presidência sobre o tema.

Mapa de interações no Twitter – de 14 de julho a 12 de agosto

Fonte: Twitter|Elaboração: FGV DAPP

Grupos roxo, vermelho e laranja

Sem um alinhamento partidário claro, estes grupos possuem como eixo temático comum a repercussão de casos sobre violência de gênero — como o caso do estupro de uma menina de quatro anos no Rio de Janeiro, o abuso de crianças em balsas no Pará e o suposto feminicídio de Tatiane Spitzner por seu marido. Aparecem, ainda, críticas a apoiadores de Jair Bolsonaro, considerados pelos perfis do grupo como machistas, homofóbicos e violentos. Seu projeto sobre castração química também foi ironizado, devido a sua suposta baixa eficiência e seu alto custo.

Grupo rosa escuro

O grupo rosa escuro aborda questões diversas relacionadas a uma pauta de direitos humanos e de combate à desigualdade social, e inclui denúncias ao assassinato de ambientalistas, a atuação de milícias na segurança privada no Rio de Janeiro e a necessidade de investimentos na área. Os perfis de Lula e Guilherme Boulos aparecem no núcleo — Lula, principalmente, em razão de declarações de sua conta na rede sobre a suposta falta de investimentos em segurança pública e por ter sancionado a Lei Maria da Penha. Já Boulos aparece pelas propostas de seu programa “Levanta Brasil” para a área. Críticas ao projeto de Bolsonaro sobre castração química também foram observadas no grupo. Casos de violências lesbofóbicas e contra mulheres também têm grande repercussão neste grupo.

Grupo azul escuro

O grupo inclui o perfil de Jair Bolsonaro — um de seus principais influenciadores — e de João Amoêdo. As publicações têm como eixo comum uma pauta mais conservadora. Danilo Gentili aparece falando sobre o assassinato da policial militar Juliene dos Santos, criticando a postura da esquerda, que não olharia para os agentes da segurança pública como olha para outros grupos sociais, e comparando a repercussão em torno desse assassinato à gerada pelo assassinato da vereadora Marielle Franco. Também foram identificados perfis que falam contra a legalização do aborto, considerado um assassinato.

Desinformação

A análise observou ainda que a notícia sobre segurança pública com maior engajamento no Twitter e no Facebook no período analisado contribui para a desinformação sobre o tema. O texto afirma que a família de alunos que agredirem professores poderá ser responsabilizada por esses atos. A Agência Lupa, parceira da FGV DAPP na Sala de Democracia Digital – #observa2018, checou a informação e concluiu que, embora a lei exista, ela é restrita ao estado do Mato Grosso, o que não é claramente informado no título da postagem analisada.

Segundo a Agência Lupa, o post analisado reúne características de um “clickbait” – conteúdo criado na internet com o intuito de conseguir cliques. Seu título não faz qualquer menção ao fato de que a lei vigora somente no Mato Grosso, dando a entender que a regra vale em todo o país. Além disso, o conteúdo foi publicado no dia 1 de agosto de 2018, um ano e meio depois da lei entrar em vigor. O que sugere ser algo novo – quando não é.

Dez notícias sobre segurança pública com maior engajamento no Facebook e no Twitter – 14.jul a 12.ago