03 set

Incêndio do Museu Nacional mobiliza 1,6 milhão de tuítes

Temer é associado à redução de verbas para áreas como cultura e educação; governos Lula e Dilma são criticados por Lei Rouanet; publicação mais retuitada destaca tamanho e relevância do acervo

Atualizado em 5 de setembro, 2018 às 10:24 am

O incêndio que atingiu o Museu Nacional provocou mais de 1,6 milhão de publicações no Twitter entre as 19h de domingo (02) e as 13h desta segunda (03), uma das maiores mobilizações verificadas este ano na rede, semelhante às do assassinato de Marielle Franco, do julgamento de Lula no STF e da greve dos caminhoneiros. A análise das interações mostra uma discussão bastante polarizada em torno da identificação dos responsáveis pela tragédia. Por um lado, o presidente Michel Temer é associado à redução de verbas para áreas como a cultura e a educação; por outro, os governos de Lula e Dilma são criticados em suas escolhas para destinação de repasses — crítica que se direciona, mais especificamente, ao usos de recursos provenientes da Lei Rouanet.

Evolução de menções sobre o incêndio do Museu Nacional – das 19h de 02.set às 13h de 03.ago

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

O pico de menções ao tema foi verificado entre 22h e 00h, quando a rede social chegou a registrar quase 4,7 mil postagens por minuto sobre o assunto. A publicação mais retuitada do período, com aproximadamente 57 mil retuítes, ressalta o tamanho e a relevância do acervo perdido. Tiveram grande repercussão, ainda, tuítes que ressaltam o bicentenário da instituição como agravante da negligência; que cobram uma punição ao governo pelo incêndio, classificado como “crime contra o patrimônio da humanidade”; e que comparam os custos de manutenção do museu com valores recebidos por membros do Judiciário.

Entre as hashtags mais utilizadas pelos perfis envolvidos na discussão, teve repercussão mais expressiva a #museunacional, presente em 3,1% dos tuítes, seguida por #lutomuseunacional (2,9%), #lutopelamemoria (0,3%), #lutopelobrasil (0,3%) e #museunacionalvive (0,2%).

Mapa de interações sobre incêndio do Museu Nacional – de 19h de 02.set às 8h de 03.set

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

A partir da análise de 953.555 retuítes orgânicos (sem participação de contas automatizadas) que ocorreram entre 19h de domingo (02) e 8h desta segunda-feira (03) sobre o incêndio do Museu Nacional, observa-se que as discussões se dividiram em três grandes grupos. Ainda que o tema tenha gerado significativa polarização entre os usuários, em todos os núcleos é possível identificar uma associação entre o problema e a falta de atuação (ou a má atuação) da gestão pública.

O grupo rosa reuniu o maior número de perfis – 54,12% do total – e também foi responsável pelo maior volume de referências ao incêndio na rede: 45,48% das interações partiram deste núcleo. Para tais usuários, a tragédia está relacionada a um descaso governamental com a preservação da memória e com a cultura e a ciência. Fala-se sobre a queda no volume de repasses, sobre o acervo perdido diante da “negligência” das autoridades, sobre a proximidade entre o incêndio e o aniversário da independência do Brasil e os 200 anos da instituição. Os usuários também ressaltam o valor afetivo do museu, muitos postando fotos de suas visitas ao local. Predomina a narrativa de que não se trata de um acidente, mas de um crime motivado pela falta de ação dos gestores públicos. Há, ainda, menções à mobilização dos estudantes de museologia da UFRJ para compilar fotos do prédio e a reportagens antigas sobre a falta de repasses, além de críticas a Bolsonaro pela declaração de que extinguiria o Ministério da Cultura se eleito.

O grupo vermelho, por sua vez, representa 28,56% dos perfis e 34,52% das publicações sobre a destruição do Museu Nacional. Também neste núcleo, destacam-se acusações contra os governantes, porém, aqui, elas estão mais direcionadas ao presidente Michel Temer e a Geraldo Alckmin, que surge associado em algumas postagens ao incêndio de outra instituição: o Museu da Língua Portuguesa. Alguns usuários criticam militantes da direita e membros da elite por reclamarem de medidas de apoio à cultura, como a Lei Rouanet; além disso, argumentam que muitos dos que agora lamentam o incêndio apoiaram a PEC do Teto, a redução de verbas para a cultura e o congelamento de salários dos servidores. Também neste grupo, aparecem críticas à declaração do prefeito do Rio, Marcelo Crivella, sobre a reconstrução do museu. Um tuíte de Guilherme Boulos em que lamenta a destruição do museu, atribuída, segundo ele, aos “cortes criminosos de Temer”, também foi bastante retuitado. Outras postagens questionam se o incêndio não resultaria em um discurso de privatização da gestão das instituições culturais brasileiras.

Por fim, o grupo azul mobilizou 14,86% dos perfis envolvidos na discussão e 19,45% do debate. Para estes usuários, o presidente Michel Temer deixa de ser o “protagonista” da catástrofe e, em seu lugar, a culpa do incêndio é atribuída aos governos de esquerda que o antecederam. O grupo responsabiliza a falta de recursos para o museu ao uso de verbas da cultura e da educação para outras atividades, como a exposição “Queermuseu” e o incentivo a montagens de “artistas ricos” pela Lei Rouanet. Para eles, se os recursos arrecadados por meio de tal lei fossem aplicados na manutenção de museus, o incêndio poderia ter sido evitado. Uma publicação do apresentador Marcelo Tas foi uma das mais retuitadas neste núcleo. Tas critica Guilherme Boulos por ter culpado Temer pelo problema, quando, segundo ele, trata-se de uma questão recorrente em governos anteriores. Há críticas também ao que seria um uso político do desastre por candidatos à Presidência. No entanto, o grupo retuíta as postagens de Marina Silva, Henrique Meirelles, Geraldo Alckmin e João Amoêdo em que eles lamentam o incêndio. Postagens antigas de Bolsonaro em que o candidato critica a Lei Rouanet e afirma que o Ministério da Cultura passará a ser uma secretaria também foram retuitadas.

Nesta análise, foram desconsiderados perfis automatizados, uma vez que representavam menos de 0,5% do total.