01 out

Atos contra Bolsonaro geram 1,4 milhão de menções; apoio, 1 milhão

Com pico de 2,5 mil tuítes/minuto na tarde do sábado, movimento #elenão teve caráter apartidário na rede, com baixa associação a outros presidenciáveis; Debate favorável a candidato do PSL se concentrou no domingo, com pico de referências de 1,4 mil tuítes por minuto

Atualizado em 2 de outubro, 2018 às 6:41 pm

Os dois movimentos organizados em oposição e em apoio a Jair Bolsonaro que ocuparam as ruas do Brasil e de dezenas de cidades do mundo no fim de semana levaram para fora das redes sociais a polarização em relação ao candidato do PSL. Com base em duas hashtags — o #elenão, engajado sobretudo por mulheres, e o #elesim, de resposta ao movimento contra Bolsonaro —, as manifestações engajaram diferentes agendas pelo país e geraram amplo respaldo no Twitter. De um total de 3,6 milhões de menções na rede às manifestações de ambos os lados, de sábado (29 de setembro) até as 11h desta segunda (1º de outubro), 1,4 milhão destacaram as hashtags contra Bolsonaro, enquanto 1,05 milhão mobilizaram apoio ao deputado federal.

Evolução de menções às manifestações de sábado e domingo

Com pico de 2,5 mil tuítes por minuto às 13h de sábado (29), quando houve predomínio de manifestações contra Bolsonaro, o debate organizado em torno do movimento de mulheres contra o candidato adquiriu nas redes caráter apartidário, com baixa presença associativa das hashtags de endosso aos protestos a nomes específicos da corrida eleitoral. Mesmo à esquerda, as candidaturas de Ciro Gomes, Marina Silva, Guilherme Boulos e Fernando Haddad, que se fizeram representadas nas passeatas, não foram amplamente citadas no Twitter em conjunção com o #elenão. O que predominou foi a oposição a Bolsonaro, inclusive a partir da hashtag #épelavidadasmulheres, cujo volume (772,6 mil referências) foi próximo ao da hashtag central do engajamento (#elenão, com 832,3 mil referências).

Do outro lado, o debate favorável a Bolsonaro se concentrou no domingo, com pico de referências de 1,4 mil tuítes por minuto às 15h30m. Da mesma forma, o candidato do PSL foi por inteiro o protagonista, sem que adversários na corrida eleitoral fossem citados de forma substancial em associação às hashtags de mobilização. O #elesim, criado em setembro como resposta ao movimento de mulheres contra Bolsonaro, obteve 137 mil citações e foi substituído pela hashtag #somosbolsonaro17 (com 441 mil) como principal engajadora dos grupos a favor do presidenciável.

Mapa de interações

Para a análise, foi coletada uma amostra das publicações envolvendo hashtags ligadas aos movimentos #elesim e #elenão — com 1.170.858 tuítes e 987.475 retuítes, já excluídos os perfis automatizados e suas interações —, entre a 0h de sábado (29) e as 21h de domingo (30). Foram identificados cinco principais grupos no Twitter com uma maior polarização do que a verificada na análise anterior. Embora ainda reúna o maior volume de perfis, o número de usuários no grupo rosa caiu seis pontos percentuais em relação à última semana. O grupo, no entanto, ganhou certa coesão, passando a ocupar um papel central entre os grupos ligados ao #elenão (roxo e vermelho). O grupo azul se isolou ainda mais, organizando-se em torno de publicações de apoio a Jair Bolsonaro. O número de perfis neste grupo também caiu de 17,1% para 12,9%.

 

Grupo rosa
Maior grupo do período analisado, o grupo rosa concentra 41,9% dos perfis envolvidos no debate e também é o núcleo mais “barulhento” no Twitter: 32,3% das interações que compõem o mapa partem dele. De modo geral, este núcleo se organiza em torno de uma crítica a Bolsonaro sem, contudo, registrar manifestações de apoio a nenhum outro candidato. Os usuários reproduzem fotos e vídeos das manifestações do #elenão no Brasil e em outros lugares do mundo, elogiam a postura de artistas que aderiram ao movimento, como a apresentadora Fernanda Lima, e listam conquistas históricas das mulheres. Também é bastante recorrente neste grupo a hashtag #ÉPelaVidadasMulheres. O movimento #elenão surge classificado como algo maior do que a oposição a um candidato, mais relacionado ao combate ao discurso de ódio.

Grupo roxo
O grupo roxo, composto por 14,4% dos perfis envolvidos no debate e representando cerca de 7,6% das interações totais é favorável às manifestações do movimento #EleNão. O candidato Ciro Gomes aparece, neste grupo, utilizando tags como #EleNãoVaiGanharNoGrito e criticando a suposta posição autoritária de Bolsonaro em sua entrevista no “Programa do Datena”. O pedetista também comenta que sua mulher participara das manifestações de mulheres contra Bolsonaro e que é favorável a esta agenda. Marina Silva aparece também neste grupo e, em torno dela, a hashtag #ElaSim, mobilizada também pelo perfil de seu vice, Eduardo Jorge. Bem como nos núcleos vermelho e rosa, #ÉPelaVidaDasMulheres possui bastante expressividade neste grupo.

Grupo vermelho
Reunindo 13,6% dos perfis engajados no debate e responsável por 18% das interações totais, o grupo vermelho também repercute positivamente as manifestações do #elenão, destacando o grande número de participantes dos eventos e citando, também, a transnacionalidade dos atos. Alguns usuários contrapõem o comparecimento às manifestações a uma fala de Jair Bolsonaro em entrevista ao “Programa do Datena”, na Band, em que diz que, pelo que ele vê nas ruas, não aceitaria resultado diferente da sua eleição. Fernando Haddad aparece no grupo repercutindo fala de Manuela D’Ávila, na qual ela diz que “só o amor é capaz de vencer o ódio”, em referência às reivindicações feministas anti-Bolsonaro. O candidato Guilherme Boulos aparece também neste grupo, falando sobre o “sucesso dos atos de Mulheres Contra Bolsonaro em São Paulo” e que as mulheres estariam “salvando o Brasil do atraso”.

Grupo azul
O grupo azul, que concentra 12,9% de perfis no debate e é responsável por 26,2% das interações totais, reúne publicações em apoio a Bolsonaro, com menções ao movimento #MulheresComBolsonaro. O protagonismo feminino na mobilização a favor do candidato do PSL é, no entanto, questionado com a hashtag #TodosComBolsonaro, que defende a ideia de que a sociedade como um todo apoia Bolsonaro, enquanto que os grupos contrários a ele seriam minoritários. O debate sobre notícias falsas também aparece com relevância, a partir dessa hashtag: a percepção de apoiadores de Bolsonaro sobre as manifestações nas ruas é que as fotos e informações sobre as mobilizações contrárias a ele estariam manipuladas, e que Bolsonaro concentraria mais apoio do que rejeição de fato.

Grupo laranja
Com menor expressividade, composto por cerca de 1,6% dos perfis e correspondendo a 0,8% das interações totais, o grupo laranja concentra também apoiadores de Bolsonaro, mas mobilizado por uma retórica de antipetismo, bem como de críticas pela suposta falta de capacidade do PSDB de se colocar como uma oposição com o mesmo protagonismo. Alguns usuários atribuem a presença nas manifestações a favor de Bolsonaro a uma resistência ao PT e não a um apoio ao candidato. Em meio à discussão sobre a necessidade de reflexão sobre uma terceira via — sem Bolsonaro e sem Haddad — Geraldo Alckmin é retuitado ao apresentar os motivos pelos quais as mulheres deveriam votar nele, e Henrique Meirelles por se colocar como uma opção confiável. Também aparecem neste grupo críticas ao que teria sido uma cobertura “exagerada” das manifestações contra Bolsonaro pela imprensa.     

Engajamento de notícias

Análise das notícias sobre as manifestações com maior engajamento nas redes sociais entre 11h de sexta-feira (28/09) e 11h desta segunda (01/10) aponta uma presença significativa do debate sobre notícias falsas. O link mais compartilhado no Facebook e Twitter no período, com 182,6 mil interações, é uma reportagem do “O Estado de S.Paulo” de fevereiro de 2017 sobre a ocupação de foliões no Largo da Batata — conforme noticiado pelo próprio jornal, circularam pelo Whatsapp e redes sociais durante o fim de semana falsas checagens afirmando que imagens usadas em reportagens sobre o ato contra Bolsonaro no Largo do Batata no sábado seriam “na verdade” do carnaval.

Entre os 50 links com maior engajamento, aparece ainda uma notícia do site República de Curitiba, com 29,6 mil interações, afirmando que as manifestações pró-Bolsonaro mobilizaram oito vezes mais pessoas do que os protestos #elenão. Neste recorte, observam-se também cinco links de sites da imprensa tradicional que desmentem notícias falsas que circularam na redes. Juntos, somaram 218,4 mil interações no Facebook e Twitter.

Parceira da Sala de Democracia Digital, a Agência Lupa havia checado até o fechamento desta análise quatro imagens sobre os atos. Todas receberam o selo de “falso”. Uma foto e um vídeo antigos de aglomerações em Copacabana foram reutilizados como sendo do ato pró-Bolsonaro deste fim de semana; em outro caso, uma foto que mostra quatro atrizes foi manipulada para incluir uma hashtag em apoio à Lei Rouanet; e em outro, imagem publicada em “O Globo” da manifestação contra Bolsonaro foi atribuída como falsa por supostamente capturar prédio que desabou em 2012.