26 set

Movimento #elenão impulsiona mais de 1,6 milhão de menções

Tuítes críticos ao candidato representam maioria, com 1,2 milhão de referências; #elesim mobiliza cerca de 283 mil tuítes; hashtag que prega vitória no 1º turno desponta nesta terça e alcança 75 mil tuítes em 14h

Atualizado em 27 de setembro, 2018 às 2:28 pm

A disputa entre hashtags favoráveis e contrárias ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro, criadas a partir da repercussão do marcador #elenão, segue mobilizando volume expressivo de publicações no Twitter. Entre 12 de setembro — dia em que os primeiros tuítes surgiram — e a última segunda (24), foram aproximadamente 1,6 milhão de menções. Entre elas, são mais numerosas as hashtags #elenão (1 milhão), #elenunca (390 mil) e #elesim (283,9 mil).

Evolução de menções desencadeadas por movimento #elenão – 12.set a 24.set

Para compreender os eixos narrativos da discussão, a FGV DAPP agrupou hashtags que se aproximam discursivamente e observou sua evolução ao longo do período de análise. O primeiro grupo inclui os marcadores #elenão, #elenunca, #elejamais, #elenãoelenunca, #elemente e #nothim (e suas variações). Em conjunto, tais hashtags mobilizaram cerca de 1,2 milhão de postagens, ou seja, 75% do total de tagueamentos monitorados.

Inicialmente, a hashtag #elenão surgiu como uma mobilização de parte do movimento feminista que se posiciona de modo contrário a Bolsonaro. Nas publicações mais retuitadas entre os dias 12 e 14 de setembro, por exemplo, destacam-se a retomada de falas do candidato consideradas ofensivas para as mulheres e, posteriormente, para outras minorias políticas; e a divulgação da página “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, com ênfase no aumento de seguidores do grupo. Naquele momento, a hashtag era bastante associada a outras, como: #mulherescontrabolsonaro, #mucb e #nãosomosumafraquejada, entre outras.

Menções às hashtags contra Bolsonaro – 12.set a 24.set

Com o passar dos dias, no entanto, a hashtag e suas variações começam a apresentar novos funcionamentos. Em alguns momentos, chegam a ser utilizadas por apoiadores de Bolsonaro, em expressões como “#elenão é corrupto” ou “#elenão é ladrão”, subvertendo a narrativa crítica indexada pelas hashtags, em direção a uma manifestação de apoio. Entre as publicações de maior repercussão, contudo, a estratégia não encontra grande espaço.

No principal pico de menções ao grupo de hashtags, registrado no domingo (16),  #elenão, #elenunca, #elejamais, #elenãoelenunca, #elemente e #nothim foram utilizadas em pouco mais de 8,3 mil tuítes por hora. O crescimento tem relação com o ataque à página contrária a Bolsonaro no Facebook, naquele fim de semana, associado também à hashtag #mucbvive. A invasão é atribuída por parte dos usuários ao candidato e a seus seguidores, o que motivou acusações de autoritarismo. Neste sentido, despontam tuítes ligados ao marcador #hackeiameuvoto, que reúne posts afirmando, em tom irônico, que impedir manifestações em uma rede social pode ser fácil, mas não teria impacto na escolha das mulheres nas urnas.

Apoio de artistas

A partir do dia 17, começa a ganhar repercussão o uso das hashtags deste grupo por artistas, como as atrizes Deborah Secco e Leandra Leal e a cantora Pitty. O envolvimento de figuras públicas de fora da política no debate mobilizou entre os usuários do Twitter a expectativa de que outros artistas se posicionassem na disputa entre o #elesim  e o #elenão. Exemplar desse movimento, a cobrança pela manifestação de Anitta tomou proporções expressivas. Apenas um dos marcadores de crítica ao silêncio da cantora — #anittaisoverparty — foi utilizado 214,2 mil vezes no período analisado, com pico em 19 de setembro.

A adesão da cantora ao #elenão, no último domingo, e a divulgação do posicionamento de outros artistas, além de postagens sobre as manifestações contra Bolsonaro convocadas para o próximo sábado (29) e sobre resultados de pesquisas de intenção de voto estão relacionados à tendência de crescimento de menções verificada na segunda-feira (24).

#Elesim, #elesnunca: as hashtags de apoio a Bolsonaro

A resposta dos perfis de apoiadores do candidato Jair Bolsonaro, a princípio timidamente organizada como focos de resistência dentro da própria hashtag #elenão, encontram novos marcadores a partir do dia 13 de setembro. Neste grupo, foram consideradas as hashtags: #elesim, #elesim17, #elesnunca, #elesnão #elesempre e #elasnão (e suas variações).

Menções às hashtags a favor de Bolsonaro – 12.set a 24.set

Logo no primeiro dia, as publicações mais retuitadas com tais hashtags davam conta da própria mobilização com o objetivo de “subir” a hashtag #elesim. Ou seja, eram tuítes que pediam a adesão à hashtag para fazer oposição ao marcador #elenão. Também surgem comparações entre Bolsonaro e Ciro Gomes, questionando quem seria o machista entre os dois. A hashtag #mulherescomBolsonaro é recorrente e a crítica ao grupo oposto — o das mulheres contra Bolsonaro — notabiliza-se, posteriormente, pela hashtag #elasnão, utilizada principalmente a partir do dia 23.

Dois picos de referências a este grupo de hashtags foram verificados no período de análise. O primeiro, em 14 de setembro, motivou cerca de 2 mil tuítes por hora. Além das já citadas publicações pedindo a divulgação das hashtags, há tuítes acusando atores políticos e a esquerda de modo geral de perseguirem Bolsonaro — perseguição esta que teria, segundo eles, “culminado” no ataque à faca, no início do mês de setembro.

O segundo pico, registrado na última segunda (24), foi ainda mais significativo, com média de 2,5 mil tuítes por hora. A elevação reflete, principalmente, a repercussão da cobrança por posicionamentos políticos de artistas e marcas, já verificada ao longo da semana em especial em torno de especulações sobre a cantora Anitta. Aqui, artistas contrários a Bolsonaro são criticados e há convocações para boicotes a suas páginas e perfis em redes sociais. A cantora Daniela Mercury é bastante criticada por ter desafiado Anitta a declarar seu voto.

Além das referidas hashtags, ganhou destaque, nesta terça-feira (25), um outro marcador: o #elesimeno1turno, que já havia mobilizado 75,2 mil tuítes até as 14h. A hashtag reúne posts de apoio ao candidato do PSL e publicações que contestam o resultado da pesquisa de intenção de voto divulgada pelo Ibope e que mostra uma aproximação entre Bolsonaro e Fernando Haddad.

Marina Silva e o #elasim

O “barulho” criado pelas hashtags a favor e contra Bolsonaro fez-se ouvir também nos tuítes da conta oficial de Marina Silva e de perfis de apoiadores da candidata, a partir da proposta da hashtag #elasim como resposta à #elenão. Foram 60,5 mil postagens, entre 12 e 24 de setembro, utilizando o marcador. No principal pico de menções, verificado no sábado (15), os tuítes mais relevantes apontam para Marina como defensora de pautas das mulheres e do meio ambiente, além de outros atributos elogiosos que a credenciariam, de acordo com tais postagens, para ser uma melhor presidente que Bolsonaro.

Vale destacar que a hashtag #elasim também aparece, mesmo que de modo menos pronunciado, em publicações sobre Manuela D’Ávila, candidata a vice-Presidência na chapa de Fernando Haddad. Nesses tuítes, critica-se o presidente Michel Temer, afirmando que Manuela será a responsável por retirá-lo do Palácio do Jaburu. Ao contrário das outras hashtags analisadas, no entanto, #elasim tem apresentado tendência de queda.

Mapa de interações

Foram coletados para a análise 147.399 tuítes e 105.743 retuítes entre os dias 20 e 23 de setembro. A partir de tais dados, foram identificados quatro principais grupos distintos em debate no Twitter. Em relação aos grupos identificados anteriormente, nota-se a união dos dois tons de rosa, claro e escuro, para a formação de um grupo unificado maior nos últimos dias, identificado pela cor rosa. O grupo vermelho diminui, assim como o azul. O grupo roxo, aumentou ligeiramente em relação à semana passada, passando a agregar 5,7% dos perfis em debate em contraposição a 4,3% dos perfis agregados anteriormente. Surge o grupo laranja, com 2,35% dos perfis, que também mobiliza a hashtag #elenão contra Bolsonaro, e conta com perfis de candidatos como Alckmin e Amoedo, além do perfil do partido Rede. O grupo verde, onde situava-se Marina, diminuiu durante os últimos dias.

Leia também: Discussões sobre voto útil ganham espaço no debate sobre candidatos

Grupo rosa

Maior grupo encontrado, reuniu 48% dos perfis em interação durante o período e mobilizou principalmente a hashtag #elenão, em oposição a uma possível eleição de Bolsonaro. Entre os dias 20 e 23, o grupo rosa uniu os grupos anteriormente rosa e rosa escuro, respectivamente com 26,4% e 21,6% na última análise, e se manteve estável no período. Os principais tuítes compartilham o apoio de famosos como Lauren Jauregui, Alinne Moraes, Dua Lipa, entre outros. De forma menos proeminente, aparecem tuítes que apoiam a ideia do voto útil em Ciro, que seria o único ator capaz de derrotar Bolsonaro nas urnas.

Grupo vermelho

O segundo maior grupo foi o vermelho, que agregou 17,8% dos perfis, tendo diminuído de tamanho em relação à análise anterior, quando teve 20,2% dos perfis em interação. O principal tuíte do grupo é de Manuela D’ávila, que compartilha a definição de “elenão”. Guilherme Boulos também aparece com destaque no debate do grupo e congratula as mulheres por protagonizarem a luta contra a eleição de Bolsonaro. Aparece no grupo tuíte do senador Lindbergh Farias, que critica a ideia de Jair Bolsonaro de implementação da alíquota única de imposto de renda e a usa como argumento para defender a ideia do #elenão. Outros tuítes fazem referência à capa da revista “The Economist” sobre o presidenciável. O grupo também ridiculariza o filho de Bolsonaro, que, segundo eles, tentou aproveitar a falta de posicionamento de Anitta de forma premeditada.

Grupo azul

O terceiro maior grupo encontrado foi o azul, que mobilizou 17,1% dos perfis nos últimos dias, tendo diminuído desde a última análise, quando unificou 20,8% dos perfis. As contas do grupo mobilizam a hashtag #elesim, defendendo Bolsonaro e demonstrando apoio à sua candidatura. Além disso, o grupo também usa como estratégia subverter a hashtag #elenão, utilizando-a em prol de Bolsonaro para enfatizar como ele “não é corrupto” e “não é ladrão”.  Um dos principais tuítes dos perfis azuis mostra o confronto entre estudantes de universidade federal e pessoas vestindo camisetas de apoio a Bolsonaro. Outro tuíte popular se opõe às cotas raciais, mostrando vídeo no qual Bolsonaro critica a ação afirmativa, que teria viés “antidemocrático”, segundo palavras do candidato.

Grupo roxo

O grupo roxo aumentou desde a última análise, passando a agregar 5,7% dos perfis em debate. O principal tuíte do grupo defende a ideia de que Ciro Gomes seria o único de vencer Jair Bolsonaro no segundo turno, enquanto Haddad apenas empataria com o mesmo. Dentre os outros principais tuítes, aparecem, de forma similar aos outros grupos, forte oposição a Bolsonaro, além de menções a famosos que aderiram à campanha.