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Possível suspensão de bolsas da Capes gera mais de 120 mil menções

Debate é massivamente crítico ao corte orçamentário do órgão e compara o financiamento em educação com o pagamento de benefícios como auxílio-moradia

Atualizado em 28 de agosto, 2018 às 12:20 pm

A possível suspensão do pagamento de bolsas de ensino e pesquisa da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) a partir de agosto do próximo ano obteve expressivo impacto nas redes sociais e gerou rápido engajamento de grupos em protesto. Do início da tarde desta quinta-feira (02) até as 12h desta sexta (03), houve 124,3 mil tuítes sobre o tema em decorrência especialmente da repercussão de carta do presidente da entidade, Abilio Baeta Neves, em que descreve o fim do repasse aos bolsistas em função do corte orçamentário previsto pelo governo federal para o Ministério da Educação em 2019. Por volta das 17h30 de quinta, foi registrado um pico de menções sobre o tema, com uma média de 213 tuítes por minuto.

Evolução do debate sobre bolsas da Capes no Twitter – de 0h de 2.ago às 12h de 3.ago

 

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

O debate desencadeado abordou financiamento público para ciência e tecnologia, investimento em educação e uso de recursos públicos no país e se articulou entre núcleos de oposição ao governo Temer e atores alinhados a partidos e candidaturas de esquerda. A candidata à Presidência pelo PC do B, Manuela D’Ávila, por exemplo, foi quem mais atraiu interações no Twitter — até as 12h de quinta foram 7.598 retuítes e 17.597 curtidas à publicação que fez comparando o corte na Capes com os gastos do presidente Temer com emendas parlamentares.

Dentre os tuítes de maior repercussão, predominou uma visão negativa sobre o futuro da ciência brasileira, com paralelos às diferentes propostas eleitorais para o Brasil em 2019. Os usuários questionam projetos que defendem menor participação do estado na condução da economia e fazem correlações entre outras despesas federais e o valor relativamente baixo das bolsas, R$ 300 milhões.

A comparação com o custo anual do auxílio-moradia foi o principal argumento usado no debate, com 9% da discussão fazendo referência ao valor pago a magistrados, que já recebem alta remuneração. Também houve perfis que fizessem alusão aos pedidos de reajuste salarial de categorias do funcionalismo, em particular o Judiciário, para destacar a disparidade em relação aos valores das bolsas de pós-graduação recebidas por mestrandos e doutorandos — e o impacto para o futuro do país de forma geral. Outro comparativo feito foi com a verba direcionada por Temer para a intervenção federal no Rio de Janeiro, suscitando paralelos entre o investimento em educação e ciência e os gastos com o combate à violência.

Mapa de interações sobre bolsas da Capes

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

No mapa de interações, que contabiliza 108.303 retuítes, há quatro grandes grupos debatendo a situação da Capes — todos, em uníssono, em condenação ao corte orçamentário no órgão e com posição ideológica e influenciadores semelhantes. O maior, em verde, detém 30,3% dos perfis e dá abordagem mais noticiosa ao assunto, com as postagens mais retuitadas destacando a carta do presidente da Capes e as consequências pragmáticas para o funcionamento das pesquisas de pós-graduação no Brasil.

Os demais grupos em destaque já apresentam leitura mais analítica e temática sobre a questão. O segundo maior, em vermelho (23,6%), apresenta posicionamento mais crítico sobre a importância do investimento público em educação (com alusões a candidaturas de olhar mais liberal sobre o papel do estado) e as diferenças entre os gastos com as bolsas de pesquisadores e outros gastos públicos, como o auxílio-moradia. O terceiro maior, em roxo (20,2%), possui teor temático próximo ao dos dois outros, mas difere em relação aos influenciadores de maior relevância, mais próximos do espectro político: os dois principais são Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila — que foi bastante influente em todos os quatro principais núcleos.

Por fim, um núcleo menor que os outros, em laranja (9% dos perfis), dá ênfase especial ao presidente Michel Temer, com críticas ao projeto político do governo do MDB, às concessões financeiras em outras pautas e lembranças sobre um conjunto de iniciativas que são vistas de forma negativa pelo grupo, como a reforma trabalhista e a PEC do teto de gastos. Também lembram do aporte de recursos à intervenção federal no Rio de Janeiro.