17 out

Segurança e corrupção são principais temas do debate eleitoral

Casos de violência após o primeiro turno e associação de Haddad a Lula são predominantes nas menções sobre as duas temáticas; com a ausência de debates presenciais, discussão sobre temas de políticas públicas também é pouco propositiva nas redes

Atualizado em 19 de outubro, 2018 às 6:30 pm

A análise temática da discussão sobre os candidatos à Presidência no Twitter mostra que Segurança (663,3 mil tuítes), Corrupção (559,8 mil) e Economia (396,3 mil) são os assuntos mais associados a Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, entre quinta (11) e segunda-feira (15). Educação (327,5 mil) e Saúde (117,5) complementam a lista. O tom das publicações — mesmo em temas mais propositivos, como Economia e Educação — tem uma abordagem que privilegia narrativas sobre aspectos morais representados pelos candidatos e que se opõem em sua essência. É o caso, por exemplo, da discussão sobre o chamado “kit gay”, que ganha destaque tanto nos tuítes sobre Economia, quanto em Educação; e do debate sobre o aborto, responsável pelas oscilações verificadas no tema Saúde.

Segurança Pública

Temas relativos à segurança pública mobilizaram 589,8 mil tuítes em relação a Bolsonaro e 149,3 mil sobre Haddad, entre 11 e 15 de outubro. O maior pico sobre os dois candidatos foi registrado na quinta (11), quando os principais tuítes abordaram atos de violência supostamente motivados por questões políticas, como o assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê, na Bahia, além do caso da jovem marcada com uma suástica por portar uma bandeira LGBT, em Porto Alegre. Em suas postagens, apoiadores de Bolsonaro duvidam que os ataques tenham motivação política e associam o PT a facções criminosas. Os apoiadores de Haddad, entretanto, afirmam que Bolsonaro faz apologia à violência e que os incidentes têm ocorrido como efeito em cadeia de seus discursos.

De forma geral, Bolsonaro é considerado por seus apoiadores como uma resposta para a criminalidade, e por seus opositores como incitador de violência e uma ameaça à democracia. Haddad, por outro lado, é visto por apoiadores como um personagem democrático e com propostas racionais para a segurança, enquanto que seus opositores o concebem como um mero representante do ex-presidente Lula e com propostas ineficientes.

Corrupção

Também em parte puxada por menções a Lula, a discussão sobre corrupção apresentou poucas oscilações e leve tendência de queda quando associada aos presidenciáveis. Entretanto, ainda é o segundo assunto mais comentado do período: Bolsonaro aparece em 416,8 mil menções, enquanto Haddad é citado 218,1 mil vezes. Críticas a Lula, seja por sua prisão, seja por casos de corrupção envolvendo outros agentes públicos nos seus governos, são predominantes e, nestas publicações, Haddad também é caracterizado como uma pessoa que apenas obedece às ordens do ex-presidente.

Também há tuítes que afirmam que a corrupção atribuída aos últimos governos foi decisiva na opção de voto no candidato do PSL, ainda que parte dos usuários afirma não ter sido Bolsonaro sua opção original para a Presidência. Seria, portanto, um “voto útil” para evitar o retorno do PT ao poder. Seguidores de Bolsonaro, no entanto, também recebem críticas com alto volume de retuítes de usuários que afirmam que muitos dos que se declaram “antipetistas” em razão da corrupção realizam “pequenas corrupções” no dia a dia.

Economia

Terceiro tema mais citado, economia teve seu maior pico no dia 11 de outubro, com cerca de 94 mil menções a Bolsonaro e 42,9 mil sobre Haddad. Naquele dia, as discussões sobre o candidato do PSL foram dispersas e impulsionadas por publicações do próprio deputado sobre redução de gastos com cortes de ministérios, combate a fraudes em programas assistenciais, além de seu plano energético para a geração de empregos e de energia limpa. Outro assunto bastante presente no debate sobre Bolsonaro é a sua fala em que afirma desconhecer economia.

Sobre Haddad, repercutiram no dia 11 sua proposta de isenção de imposto de renda para quem recebe até cinco salários mínimos e seu projeto de reforma bancária. Uma fala do candidato em que acusa Paulo Guedes de ser especulador do mercado financeiro também foi bastante comentada. Por outro lado, opositores do petista também aparecem no pico de menções falando que o seu partido quer “transformar o Brasil em uma Venezuela”. Alguns usuários também associam Haddad a uma decadência econômica que teria sido provocada pelo PT. Outros, em referência a Bolsonaro, falam que o deputado tem propostas impopulares e, por isso, foca preferencialmente em debates morais, como a polêmica do chamado “kit gay”.

Educação

O debate sobre educação associado aos presidenciáveis traz Haddad em posição central — mesmo nas narrativas de publicações que citam Bolsonaro. Tal centralidade, no entanto, apresenta nuances diferentes ao longo do período analisado. A discussão em torno do chamado “kit gay” foi presente em todo o recorte temporal, mobilizando cerca de 134 mil menções. De modo geral, tais tuítes criticam o petista, endossando as afirmações de Bolsonaro sobre o assunto. A decisão do TSE de retirar do ar vídeos em que Haddad é acusado de defender a distribuição do material também foi bastante retuitada.

A comemoração do Dia dos Professores, por sua vez, contribuiu para promover o maior pico de menções do período, com 68 mil referências a Haddad —29,6% do total de publicações associadas a ele sobre educação (229,6 mil). Foram destaque publicações que comparavam as propostas de Haddad às de Bolsonaro para a área, com a presença recorrente da oposição entre “livros x armas”, com referências críticas ao episódio em que o deputado incentivou uma criança a imitar uma arma com as mãos.

Também foram importantes para o debate questões como o ensino à distância para crianças (criticado, principalmente, a partir de declarações do próprio Haddad, e defendido pela base de apoio de Bolsonaro, que apontou o caráter facultativo da medida) e a discussão sobre a escolha de um novo ministro da educação. A possibilidade de Mario Sergio Cortella assumir a pasta em um governo petista foi celebrada, enquanto a aproximação entre Bolsonaro e Alexandre Frota seguiu tratada em tom de ironia.

Saúde

Questões relacionadas a aborto e a atendimento de mulheres vítimas de violência sexual no SUS dominaram a discussão sobre saúde associada aos presidenciáveis. Haddad foi mais mencionado nesta temática, com 64,8 mil referências, contra 61,5 mil de Bolsonaro. Na sexta-feira (12), as menções a Haddad alcançaram o maior pico do período, com 28,3 mil publicações, majoritariamente, em função de críticas a sua participação em uma missa, quando teria sido chamado por uma mulher de “abortista”. Também são recorrentes menções que afirmam que o candidato e sua vice, Manuela D’Ávila, seriam “ateus e comunistas” e que, ao comparecerem à celebração religiosa, teriam a intenção apenas de angariar votos. Algumas das publicações mais retuitadas ironizam o episódio, afirmando que a ida dos “abortistas” à missa seria um milagre operado por Bolsonaro.

Na última segunda-feira (15), contudo, Bolsonaro retomou tendência de crescimento em associação ao debate sobre saúde, enquanto Haddad começa a se desvincular da pauta. Projeto do candidato do PSL que desobrigaria atendimento obrigatório para vítimas de estupro no SUS — e que já vinha sendo destacada em publicações de seus opositores — ganhou espaço devido ao lançamento da série “Assédio”, na TV Globo, citada em tuítes que criticam a postura do presidenciável. Também são frequentes posts que afirmam que Bolsonaro não teria propostas para a saúde pública, e que o candidato foi favorável à “PEC do Teto”, contribuindo para congelar investimentos na área. A preocupação de alguns usuários com a continuidade da assistência gratuita a portadores do HIV surge como outro tema de publicações com repercussão. Por outro lado, o deputado é apontado por alguns perfis como solução para o que afirmam ser um “descaso” com o SUS dos governos petistas.