11 set

Segurança: Tiroteios, homicídios e violência de gênero são destaques

Análise de 43 mil interações mostra que esquerda e direita não dividem pauta de consenso

Atualizado em 24 de setembro, 2018 às 11:55 am

Uma análise de cerca de 43 mil retuítes realizados por seguidores dos presidenciáveis em postagens dos candidatos sobre Segurança Pública nos últimos três meses, de 24 de maio a 22 de agosto, revela que três temas, diretamente ligados a índices de criminalidade, estiveram entre os principais motivadores de interações no período: “tiroteio” (21,24%), reflexo de rotina cada vez mais frequente, sobretudo nas grandes cidades; “homicídios” (9,89%), cuja tendência de crescimento na taxa por 100 mil habitantes por ano se manifesta na sensação de insegurança e medo dos brasileiros; e “violência de gênero” (8,39%), que mobiliza público crescente no debate sobre suas causas e efeitos.

Ainda aparecem com relevância questões sobre a gestão da segurança. “planos de governo”, que aborda questões genéricas baseadas nos planos de governo dos candidatos, foi responsável por 30,24% do engajamento total. Em seguida, aparecem “priorização de recursos” (12,41%), com manifestações sobre a necessidade de melhores escolhas na alocação dos escassos recursos do setor; e “corrupção” (10,35%).

As interações no período analisado tiveram como principal impulsionador Jair Bolsonaro, cujos seguidores responderam por 47,8% do engajamento observado, sobretudo nos temas: “planos de governo” — inclui, entre outras, propostas de reforma da Lei de Execução Penal e flexibilização do desarmamento —, “tiroteios” e “violência contra a mulher”. João Amoêdo, o segundo nesse quesito, motivou aproximadamente 18% das interações, principalmente devido à ênfase ao debate sobre “priorização de recursos”,  com enfoque em corte de gastos, e à crítica à corrupção. Guilherme Boulos, o terceiro (com 11%), liderou mobilização na esquerda em temas como homicídios e violência de gênero.

O recorte das interações dentro de cada tema reforça a consolidação das agendas nos campos da direita e da esquerda. A temática de “tiroteio”, mais uma vez, é praticamente dominada pelos seguidores de Bolsonaro, bem como “planos de governo”, indicando o predomínio que as propostas do campo conservador têm obtido no debate sobre segurança. A discussão sobre homicídios é dominada, por sua vez, por seguidores de Boulos e Lula (então pré-candidato).

A temática de “violência de gênero” é dividida entre o candidato do PSOL e Bolsonaro, reflexo da polarização que tem marcado essa discussão. A candidata Marina Silva, que teve destaque no tema após os primeiros debates, não aparece em evidência devido ao desempenho fraco do seu perfil na rede. Por fim, o debate sobre “priorização de recursos” tem em Amoêdo seu protagonista (entre as interações no Twitter no período analisado, vale sempre ressaltar).  

Entre os meses de junho e julho, verificou-se que os debates sobre “tiroteio” (27,1%), “planos de governo” (26,75%) e “violência contra mulher” (17,28%) foram os que contaram com maior volume de interações dos seguidores dos candidatos.

Relação dos subtemas de Segurança Pública com a quantidade de interações (junho e julho)

Fonte: Elaborado pela FGV DAPP.

Entre aqueles que figuram com maior volume de interações, os seguidores de Jair Bolsonaro reagiram mais às categorias “planos de governo” e “tiroteio”, enquanto os de Guilherme Boulos reagiram mais aos debates sobre “homicídios” e “violência contra a mulher”.

Para os seguidores de Geraldo Alckmin, a categoria “planos de governo” suscitou maior interação, enquanto que para os seguidores de Lula os subtemas “homicídios” e “justiça penal” foram mais preponderantes.

Já durante o mês de agosto, período em que foram definidos os candidatos à Presidência, verificou-se uma mudança no debate, com a categoria “planos de governo” na liderança, com 43,52%, seguida por “corrupção” (20,91%) e “priorização de recursos” (17,05%).

Relação dos subtemas de Segurança Pública com a quantidade de interações (agosto)

Fonte: Elaborado pela FGV DAPP.

Entre aqueles que figuram com maior volume de interações, os seguidores de Jair Bolsonaro mantiveram maior engajamento nas categorias “planos de governo” e “tiroteio”, tendo, neste mês, uma participação também relevante de “corrupção” e “violência contra a mulher” — esta impulsionada por postagem em que Bolsonaro questiona a existência de uma cultura do estupro.

João Amoedo que teve como maiores interações categorias como “corrupção”, “priorização de recursos” e “corte de gastos”. No caso de “homicídios”, categoria antes ligada aos seguidores do ex-presidente Lula, aparece vinculada aos de Fernando Haddad.

As interações dos seguidores de Geraldo Alckmin na categoria “planos de governo” são motivadas, majoritariamente, por postagem em que o candidato critica uma suposta falta de propostas para segurança no programa de governo de Bolsonaro.

As interações entre os seguidores dos então pré-candidatos à Presidência revela, portanto, um predomínio de temas vinculados à percepção de segurança dos cidadãos. Os casos, sobretudo de tiroteio, homicídio e violência contra a mulher, são um retrato fiel da realidade de medo e insegurança que uma parcela crescente da população brasileira vivencia. No último mês, observa-se um aumento do debate em torno das propostas expressas pelos candidatos em seus programas oficiais de governo — e de sua repercussão no noticiário e no debate de forma geral. No entanto, essa discussão ainda é bastante marcada pela oposição entre as perspectivas dos campos da direita (em maior volume) e da esquerda, sem indícios de uma convergência em torno de uma pauta de consenso.